O rapper MV Bill leva no corpo a tatuagem de um microfone com a inscrição "minha arma". Nos últimos tempos, porém, seu arsenal contra as desigualdades sociais transcendeu a música. Bill, 30 anos, aposta em outras frentes, com o lançamento de um livro sobre a violência nas periferias do país e um debate marcado para julho, na Festa Literária Internacional de Parati, no Rio de Janeiro.
- Minha arma não é mais só o microfone, ainda bem que meu arsenal aumentou - diz o Mensageiro da Verdade Bill, para quem a escrita acaba de se consolidar como outro meio de denúncia.
Morador de Cidade de Deus desde que nasceu, o rapper lançou o livro Cabeça de Porco (Objetiva), escrito junto com o empresário de hip hop Celso Athayde e o antropólogo e ex-secretário de Segurança Pública do governo federal, Luiz Eduardo Soares.
E diz ter munição para mais. Prepara um terceiro disco, sobre o qual prefere guardar segredo.
- Não posso falar porque senão nego vai beber nas minhas fontes antes de mim. Tá cheio de ladrão - afirma.
Na sua "militância social" acaba de inaugurar um centro cultural, com apoio do craque Ronaldo, na favela carioca que ficou conhecida mundialmente pelo filme de mesmo nome.
- Agora veio o livro, a gente está pensando também em pegar alguns capítulos e adaptar para teatro, fazer uma peça que seja toda misturada com o rap. São outras formas de tocar as pessoas, de reabrir a discussão, de mostrar que com nosso discurso, por mais que pareça de exclusão, na verdade a gente quer ser incluído, mas no mesmo nível, sem submissão - conta Bill, que também pensa em escrever um outro só seu, com histórias pessoais.
Mundo do crime
O livro, sobre o qual Bill e Soares falarão num debate da Flip junto com Arnaldo Jabor, traz material da pesquisa feita em favelas por Bill e Athayde em nove Estados brasileiros, dos mais de 20 em que estiveram nos últimos sete anos.
Cabeça de Porco reúne os bastidores dessa pesquisa em que eles entrevistaram e filmaram crianças e jovens ligados ao crime e análises e relatos de Soares.
Graças ao rap, Bill se considera um sobrevivente desse mundo. A música o tornou conhecido no país inteiro, com um público tão antagônico quanto as diferenças que combate.
No livro, fala da surpresa ao ser recebido com pedidos de autógrafos pelos jovens do tráfico. Uma situação que, de certa forma, ele estranha, pois é uma realidade que também combate:
- Isso é uma coisa inexplicável, porque nas minhas músicas eu critico as drogas, nas minhas palavras, agora no livro, também. Eu sou contra caras que hoje são traficantes e foram criados comigo.
Para Bill, é possível que eles o respeitam e ouçam sua música, porque ele faz parte do mesmo ambiente.
Com pesar, o rapper reconhece que entre as poucas opções que esses jovens têm surge o tráfico, a criminalidade, com a promessa de dar mais dinheiro:
- É uma coisa que a maioria deles quer, visibilidade e auto-estima elevada. Por mais que isso custe a vida dele, ele prefere viver pouco como rei do que muito como ninguém.
A saída? Não é fácil. Assim como o livro, escrito por três cabeças e a seis mãos, requer união, opina Bill. Assim como Cabeça de Porco, que significa na gíria uma comunidade de difícil acesso, um conglomerado de muitas casas, uma situação complicada.
- Os caminhos temos que descobrir juntos - diz.