Numa loja de livros perto da New York University, a história do punk rock nunca esteve tão perto de uma revisão drástica de suas motivações. Na segunda-feira (10), às 8h da noite, o escritor americano Antonino D'Ambrosio reuniu alguns amigos (entre eles, o rapper Chuck D., pioneiro do hip-hop americano com o Public Enemy; e a escritora Amy Philips) para o lançamento do livro Let Fury Have the Hour - The Punk Rock Politics of Joe Strummer, sobre o mítico líder do grupo inglês The Clash, morto em 2002 aos 50 anos.
O livro reúne dezenas de ensaios, artigos e reflexões sobre a obra do front man do Clash, Joe Strummer (1952-2002), que morreu de problemas cardíacos numa época em que o grupo já não existia, e ele excursionava com uma banda chamada Los Mezcaleros. A obra traz textos de gente famosa, como Peter Silverton, Barry Miles, Anya Philips, Sylvia Simmons, Vic Garbarini, Caroline Coons, Todd Martens, Joel Schalit e os críticos Greil Marcus e Lester Bangs. Este último, em 1979, sustentava que The Clash era "o elo perdido entre a música negra e o barulho branco".
Chuck D. em pessoa, autor do prefácio do livro, veio corroborar a tese de Lester Bangs na loja de livros, de boné, jeans e barriguinha proeminente.
- Nunca encontrei Strummer pessoalmente, mas ele acreditava que a música pode mudar o mundo torná-lo melhor, e é a mesma coisa na qual eu acredito - diz Chuck.
- A música é uma linguagem universal. E esses caras do Clash entendiam que esse é um mundo inteiro, uma única comunidade, e a música poderia expressar o que acontece nesse mundo - afirmou o rapper.
- Aprendi a importância disso com Joe Strummer.
O autor Antonino D'Ambrosio foi quem criou o primeiro sinal de confronto, quando comparou The Clash e Sex Pistols.
- Acho que Nevermind the Bollocks é um bom disco, mas o Sex Pistols, de algum modo, foi apenas uma boy band inventada por Malcolm McLaren. Mesmo aquele protesto no aniversário da rainha foi apenas um manifesto sensacionalista, inócuo - afirmou.
- Quando ouvi aquela música sobre a rainha, pensei: quem diabos é a rainha? - brincou Chuck D.
- Sex Pistols, para mim, não era muito diferente dos Bee Gees, da disco music.
A diferença entre Clash e Pistols, para D'Ambrosio, seria a coragem e o ativismo responsável do Clash.
- De 1981 a 1983, eles foram corajosos. No seio da indústria do disco, fizeram um álbum como Sandinista, que foi um desastre comercial. Batalharam por causas dos direitos humanos e do humanismo e fizeram uma música com frescor e originalidade. É por isso que digo que não há outro Clash - disse.
Da "terceira onda do punk rock", D'Ambrosio citou apenas a banda Nofx como "interessante", e zombou do Green Day.
- Joe Strummer teve três filhas e uma das bandas favoritas de uma das filhas de Joe é o Green Day. Uma pena.
A afirmação provocou uma reação em cadeia, da mesa e da platéia. A escritora Amy Philips, de 23 anos, que participa do livro com ensaio sobre a presença feminina em The Clash, disse que "não se trata de defender o Green Day, mas há lugar para essa música no mundo. Não importa se é punk rock, hip-hop ou o que quer que seja, sua importância é definida pelos seus fãs, seus ouvintes".
O inglês Richard Mazda, que produziu shows punks na Inglaterra nos anos 70, estava na platéia e protestou.
- É preciso estabelecer diferenças entre The Clash e Sex Pistols, em primeiro lugar - disse.
- Joe Strummer veio da classe média, teve boa educação e sabia tocar. Johnny Rotten, dos Pistols, veio da classe operária, não sabia tocar música. Sua afirmação no meio musical tem importância. E não importa se Malcolm McLaren manipulou ou não os Pistols, God Save the Queen é um manifesto político.
O cantor Billy Bragg foi um dos fãs incondicionais do Clash.
Livro conta a tragetória do líder do grupo inglês The Clash
Sexta, 14 de Janeiro de 2005 às 13:42, por: CdB