Rio de Janeiro, 14 de Fevereiro de 2026

Livro atualiza versões oficiais sobre mortes e desaparecimentos durante a ditadura

Quarta, 29 de Agosto de 2007 às 18:23, por: CdB

Resgatar a memória, a verdade e a justiça sobre o que realmente aconteceu com os mortos e desaparecidos durante o período da ditadura militar é o objetivo da obra Direito à Memória e à Verdade,  lançada nesta quinta-feira no Palácio do Planalto. A cerimônia contou com a presença de diversos familiares de vítimas, recebidos antes pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em audiência reservada.

A publicação é o resultado de 11 anos de trabalho da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e recupera a história de 479 militantes políticos, que foram vítimas da ditadura militar no Brasil durante o período de 1961 a 1988. Para cada militante, o livro traz a antiga versão para o que supostamente teria ocorrido com os desaparecidos e uma nova versão oficial, obtida depois da pesquisa realizada pela comissão.

A comissão analisou ao todo 475 casos em 11 anos de trabalho. Destes, 136 já tinham suas mortes ou desaparecimentos reconhecidos oficialmente, 221 passaram a ter direito a indenização para as famílias após o trabalho da comissão e 118 tiveram os pedidos de reconhecimento oficial negados.

Em seu discurso durante o lançamento, Lula garantiu que o governo continuará fazendo o que for preciso para contar a história do Brasil do jeito que ela realmente aconteceu.
 
— Nós temos disposição e vontade política para continuar fazendo o que for preciso fazer para que a gente possa fazer com que a história do Brasil seja contada com uma única verdade. Ou melhor, com aquela verdade que todo mundo sabe que existe, mas que está mal contada —, disse o presidente.

Segundo o ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannnuchi, organizador da publicação, a obra não tem o objetivo de promover "revanchismo", mas sim o de buscar a reconciliação na sociedade brasileira.
 
— Ninguém pode e ninguém será movido por sentimentos de revanchismo. Mas o silêncio e a omissão também não permitem a idéia de reconciliação, que só pode nascer do profundo conhecimento daquilo que ocorreu, sobretudo o direito inalienável de 140 famílias de sepultar os seus mortos —, disse o ministro, em alusão ao número de pessoas desaparecidas que ainda não tiveram seus restos mortais encontrados.

A necessidade da abertura dos arquivos militares foi destacada pelo presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Marco Antônio Rodrigues Barbosa.
 
— No Brasil, ainda não se pode afirmar que houve uma plenitude do conhecimento da verdade, os arquivos ainda não foram totalmente abertos, assim como ainda não foram identificados os desaparecidos durante a Guerrilha do Araguaia —, afirmou.
 
Barbosa lembrou que existe iniciativa do governo de acabar com o “sigilo eterno” de arquivos e disse que deverá ser criado um centro de documentação a respeito da repressão na ditadura.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, garantiu que as Forças Armadas receberam a publicação do livro com naturalidade. Segundo ele, não haverá reação dos militares e, se houver, ela não ficará sem resposta do governo.

A primeira edição do livro tem tiragem de 5 mil exemplares, que vão ser distribuídos a comissões de familiares, centros de pesquisa, imprensa, parlamentares e bibliotecas públicas. Uma versão eletrônica da publicação também está disponível na página da Secretaria Especial de Direitos Humanos na internet (www.sedh.gov.br).

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