Chanceleres de todo o mundo tentavam nesta segunda-feira dar um sopro de vida em um tratado global de desarmamento, cuja credibilidade, após 35 anos, está seriamente ameaçada, na opinião do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan.
A conferência durará um mês, mas mesmo antes de seu início já parece fadada ao impasse. A principal preocupação dos Estados Unidos será controlar o Irã e a Coréia do Norte.
Mas a maioria dos países se queixa de que as potências nucleares, especialmente EUA e Rússia, demoram demais em cumprir sua parte no Tratado de Não-Proliferação Nuclear (NPT, na sigla em inglês), que exige deles o desmantelamento gradual dos seus arsenais.
O Irã ameaçou no sábado retomar sua produção de combustível nuclear. A Coréia do Norte, que diz ter bombas atômicas e abandonou o NPT, aumentou a tensão neste domingo, ao aparentemente realizar o teste de um míssil de pequeno alcance no mar do Japão. ]
Os 188 membros do tratado de 1970, que é o marco dos tratados de redução armamentista, se reúnem a cada cinco anos para avaliar os progressos e definir novos objetivos. Apenas Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China têm autorização para manter armas nucleares.
Mas o brasileiro Sérgio de Queiroz Duarte, presidente da conferência, disse na última sexta-feira esperar alguma movimentação nesta semana, porque muitos países "mantêm as cartas junto ao peito até que tenham tomado uma decisão".
Annan já demonstrou em várias ocasiões sua apreensão. Em fevereiro, disse que o NPT "enfrenta sérios desafios à sua credibilidade".
Annan e Mohamed ElBaradei, diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA, um órgão da ONU), abrem a conferência. Em seguida, vários chanceleres, inclusive Kamal Kharrazi, do Irã, fazem seus pronunciamentos. O encontro vai até 27 de maio.
Kharrazi também terá reuniões reservadas com ElBaradei e com o ministro alemão das Relações Exteriores, Joschka Fischer.
Já a Coréia do Norte não vai comparecer. Índia e Paquistão, que declaradamente têm armas nucleares, e Israel, que supostamente também tem, não são signatários do tratado. O governo Bush, que rejeita um tratado para proibir testes nucleares, enviou uma delegação de médio escalão.
ElBaradei quer uma moratória global para o enriquecimento de urânio e o reprocessamento de plutônio, que são as duas formas de produzir combustível para bombas atômicas.
Ironicamente, os Estados Unidos e o Irã são aliados contra a proposta de ElBaradei. Mas muitos países vêem no NPT brechas para o desenvolvimento legal de combustível para armas nucleares. Outro ponto criticado é que a Coréia do Norte possa ter abandonado o tratado sem sofrer sanções.
Washington tem sua própria solução: que países que descumprirem o NPT tenham negado o direito à tecnologia nuclear pacífica, como garante o tratado.
Diplomatas dizem que isso significa que o Irã teria de parar o seu programa de enriquecimento de urânio, que foi ocultado da AIEA durante 18 anos e declarado em 2003.
Annan e El Baradei também querem que mais países ratifiquem um protocolo que autoriza a AIEA a realizar inspeções mais intrusivas e com pouco tempo de aviso prévio.
A Rússia e os Estados Unidos concentram a maior parte das cerca de 30 mil armas nucleares do mundo. Cada um desses países tem entre 7.000 e 8.000 ogivas operacionais. Os EUA teriam outras 3.000 a 5.000 armazenadas, enquanto a Rússia teria mais 8.000.
A China teria cerca de 403 armas nucleares. Em seguida vêm França (estimativa de 346), Grã-Bretanha (185), Índia e Paquistão (40 ogivas operacionais cada). Especula-se que Israel tenha cerca de 200 ogivas.