Rio de Janeiro, 22 de Maio de 2026

Líderes de clãs são favoritos nas eleições libaneses

Sexta, 10 de Junho de 2005 às 07:12, por: CdB

Pôsteres eleitorais do líder druzo anti-sírio Walid Jumblatt estão espalhados pelas paredes da cidade de Aley, no monte Líbano, às vésperas da rodada mais importante das eleições gerais libanesas, no próximo domingo.

- Com você até o fim do mundo - diz um cartaz em que Jumblatt aparece ao lado de seu pai, Kamal, um político de esquerda assassinado em 1977.

Jumblatt não concorre neste distrito eleitoral de Baabda-Aley, mas apóia uma lista de candidatos contra o grupo do líder cristão Michel Aoun, que também pertence à oposição anti-Síria e aposta em um grande comparecimento do eleitorado cristão para obter a vitória.

Lealdades sectárias e tribais e questões como o relacionamento com a Síria são tradicionalmente o que condiciona a formação do Parlamento de 128 cadeiras, superando temas como reforma do mercado de trabalho e melhoria no padrão de vida da população.

- Há muito tempo seguimos nossos líderes como ovelhas - afirmou Anis Shmeit, muçulmano druzo de 73 anos.

- Ninguém os questiona. Eles nos mostram sua cara na época de eleição e nunca cumprem as promessas, mas as pessoas os elegem porque são da mesma seita - ressaltou ele.

Essa frustração é comum a libaneses que se queixam do desemprego e da incapacidade do governo em conter a dívida pública de 34 bilhões de dólares.

- Não ligo se alienígenas ou macacos vierem me governar - disse Bilal Tarabay, 24, técnico de ar-condicionado.

- O Líbano é dominado pelos mesmos políticos mentirosos. Que ganhe qualquer um, o que eu quero é poder viver com dignidade - disse o eleitor.

O distrito de Baabda-Aley, no centro do país, é um dos mais equilibrados em termos religiosos. Há 84 mil eleitores cristãos maronitas, 26 mil ortodoxos, 11 mil católicos, 80 mil druzos, 35 mil muçulmanos xiitas e 9 mil sunitas.

Analistas dizem que, embora se queixem dos padrões de vida, os eleitores tendem a não levar esse problema para as urnas.

- O Líbano não é politicamente estável a ponto de permitir que as pessoas votem por melhores condições de vida ou mais empregos - disse Bechara Charbel, editor-chefe do jornal Al Balad.

- Os eleitores estão mais preocupados com questões relativas ao destino do país - sentenciou.

Kamal Feghali, especialista em eleições, manifesta opiniões semelhantes, acrescentando que "é o sectarismo que faz as pessoas votarem e é o que garante o sucesso dos candidatos no Líbano".

- As pessoas não acreditam mais em promessas sobre melhoria das condições de vida, porque estas promessas vêm de indivíduos, e não de instituições políticas confiáveis - afirmou.

Esta é a primeira eleição no Líbano em três décadas sem a presença militar síria. O pleito acontece por região, em quatro domingos consecutivos, até 19 de junho.

A terceira rodada acontece no domingo no centro e no leste do Líbano. Deve ser a mais disputada, porque facções anti-sírias rivais estão travando duelos acirrados em vários distritos eleitorais, especialmente nos de população cristã.

Desentendimentos sobre alianças e ambições políticas conflitantes racharam a oposição, que poucas semanas antes estava unida para protestar contra o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik al-Hariri e contra a presença militar síria, que terminou em abril.

- Esta é a realidade do Líbano. Cada um segue o seu líder - disse Zaher Al Jerdi, 29, dono de uma loja em Aley.

-Esta é a nossa prioridade - disse ele

Tags:
Edições digital e impressa