Os líderes partidários reunidos com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) nesta quinta-feira decidiram suspender, sem prazo, a instalação de novas CPIs, entre elas a dos Bingos.
- Fizemos um acordo de lideranças para avaliar a oportunidade de instalação de mais CPIs neste momento - disse a jornalistas o líder do governo Aloizio Mercadante (PT-SP).
A suspensão favorece um acordo tácito entre parlamentares do governo e da oposição, para delimitar o campo de batalha das CPIs que investigam irregularidades no governo Luiz Inácio Lula da Silva e podem alcançar o período do antecessor Fernando Henrique Cardoso.
Congressistas do PT e do PSDB ouvidos pela Reuters sustentam que a abertura de outras quatro CPIs prontas para a instalação poderia comprometer a governabilidade e o funcionamento normal das instituições.
A partir de uma decisão do STF, que na quarta-feira determinou a instalação, no Senado, da CPI dos Bingos, também tornou-se inevitável a instalação de CPIs da Privatização, de irregularidades no Cartão do SUS e das privatizações no setor elétrico (todas sobre o governo FHC).
Os líderes no Senado decidiram fazer a indicação dos nomes para essas comissões, mas não marcaram data para sua instalação.
Renan, por sua vez, ressaltou que vai fazer a parte que lhe cabe:
-Vou indicar os nomes da CPI dos Bingos, se os líderes não o fizerem, e de qualquer outra CPI que cumprir os preceitos regimentais.
A trégua, segundo as fontes, não deve ser explícita. A abertura de novas frentes de investigação, no entanto, contraria parte do PT. O ex-ministro José Dirceu (PT-SP) disse a colegas que esperava investigações sobre o governo Fernando Henrique.
O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), decidiu apresentar a proposta de congelamento das novas CPIs, até para testar a receptividade entre os demais líderes. Ele disse à Reuters que o primeiro passo foi "bem-sucedido".
No limite, segundo Virgílio, poderia ser instalada também a CPI do Mensalão, na Câmara. O líder argumenta que a CPI dos Correios já vai abarcar, naturalmente, a denúncia do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) sobre o suposto pagamento de "mesadas" a deputados da base governista pelo PT.
A delimitação do campo de batalha das CPIs foi objeto de consultas entre parlamentares e líderes do governo e da oposição na noite de quarta-feira, mas nenhum dos lados havia assumido a paternidade da idéia.
Mercadante argumentava com a possível inviabilização dos trabalhos no Senado. "Para instalar e fazer funcionar todas as CPIs propostas, seria necessário mobilizar 66 senadores."
Coube ao líder do PSDB verbalizar a proposta em entrevista ao chegar para a reunião no gabinete de Renan.
- Temos de nos entender sobre uma agenda de controle da crise, pois nenhum de nós é forte o bastante para querer controlá-la - disse Artur Virgílio, justificando o adiamento da instalação das outras CPIs.
- A crise é grande demais e temos de fazê-la diminuir, com a apuração rigorosa dos fatos, sem inviabilizar a governabilidade do país - acrescentou.
O líder tucano ressalvou, porém, que o PSDB está pronto para indicar seus componentes em qualquer CPI, inclusive as que investigariam o governo FHC.
- É tão fácil tocar fogo... O PSDB não é um partido que fica jogando gasolina no fogo, sabemos que um incêndio em grandes proporções só pode interessar a um populista ou a um oportunista, mas não a nós ou ao país - disse Virgílio, em tom de desabafo.
- Se não formos compreendidos, então eu vou dizer em inglês: 'I give up!' (Eu desisto!) - disse Virgílio antes da reunião.