Em depoimento ao Conselho de Ética nesta quarta-feira, o líder do PTB na Câmara, José Múcio Monteiro (PE), admitiu ter testemunhado duas conversas entre o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) e dirigentes petistas para tratar da transferência de dinheiro a campanhas municipais petebistas.
Em uma dessas conversas, revelou ter ouvido de Jefferson o pedido de "mais 4 milhões de reais" para selar o acerto eleitoral. Roberto Jefferson vem afirmando que o PT prometeu, para o caixa das eleições municipais de 2004, 20 milhões de reais ao PTB. Somente 4 milhões de reais teriam sido repassados. O PT nega esse acordo financeiro, admitindo apenas a aliança política.
- Participei de duas reuniões onde ouvi falar de dinheiro - afirmou Múcio. A primeira vez, segundo ele, foi em uma reunião na sede do PT em Brasília, em junho do ano passado, quando disse ter ouvido falar na contribuição de 20 milhões de reais. Estavam presentes, além dele e Jefferson, o petebista Emerson Palmieri (tesoureiro informal do partido), Delúbio Soares (tesoureiro do PT), Marcelo Sereno (diretor de comunicação do PT) e o presidente do PT, José Genoino.
No segundo encontro --realizado no apartamento de Roberto Jefferson, em março deste ano, com a presença das mesmas pessoas, exceto Marcelo Sereno--, José Múcio ouviu falar de 4 milhões de reais que já teriam sido repassados e de outros 4 milhões de reais que Jefferson cobrava do PT, pedindo a oficialização da transferência. O líder do PTB, afirmou, no entanto, que o dinheiro não chegou às mãos dos políticos do partido.
- Se vocês me arrumarem mais 4 milhões de reais eu cumpro minhas obrigações com o partido. Mas preciso oficializar esse dinheiro - teria dito Roberto Jefferson durante a segunda reunião, segundo o relato do líder do PTB.
O relato de que o presidente do PT era um dos participantes das reuniões contradiz a versão de Genoino, reafirmada nesta manhã, de que nunca ouvira falar nesse assunto. A divergência das informações deverá levar Genoino a prestar esclarecimentos aos deputados.
O presidente do Conselho de Ética, deputado Ricardo Izar (PTB-SP), considerou novidade as declarações de Múcio sobre uma parcela de 4 milhões adicionais.
- O fato novo é que ele pediu mais quatro milhões de reais para a eleição municipal - avaliou Izar.
Os parlamentares do Conselho de Ética apontaram algumas contradições entre os depoimentos de José Múcio e seu correligionário Roberto Jefferson.
O líder petebista negou que a eventual proposta de dinheiro em troca de apoio ao Congresso, conhecida como "mensalão", tivesse sido submetida à "votação" na bancada, como relatou Jefferson. Ele admitiu, porém, conversas informais nesse sentido, todas negativas.
Ele também nega que foi procurado por membros de outros partidos para convencê-lo a receber a suposta mesada de 30 mil reais.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o então presidente do PTB disse que os deputados Pedro Henry (PP-MT), Bispo Rodrigues (PL-RJ) e Valdemar Costa Neto (PL-SP) pressionaram Múcio a receber o "mensalão". No depoimento desta tarde, porém, ele negou, assim como não confirmou a versão de seu colega de que teria conversado com Delúbio sobre o assunto.
Bispo Rodrigues e Henry iriam depor nesta quarta-feira, mas adiaram a presença no conselho.