A eleição do deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP) para a Presidência da Câmara Federal conteve, ao menos temporariamente, a ofensiva do bloco liberal-conservador de desestabilização do governo Lula. A julgar pela hidrófoba reação da mídia burguesa, a direita ficou furiosa com o inesperado resultado. O fascistóide Diogo Mainardi, articulista da repugnante revista Veja, chegou a rotular o novo presidente da Câmara de "perfeito idiota", o que lhe valeria um merecido processo criminal. O PSDB e o PFL, representantes das elites dominantes, sentiram o baque e tiveram que adiar seus planos de impeachment do presidente Lula.
A queda de temperatura na grave crise política nacional, porém, não deveria desarmar os espíritos e nem gerar novas ilusões de classe. Ela bem que poderia servir para extrair lições sobre as suas causas. Afinal, o que explica o acuamento de um governo eleito com 53 milhões de votos e que gerou tantas expectativas de mudanças no sofrido povo brasileiro? De onde a direita liberal-conservadora, escorraçada do poder em 2002, retirou energias para investir nesta revanche hipócrita e golpista? Quais as razões das dificuldades para se mobilizar o povo na defesa de um governo que é oriundo de suas lutas? Como superar a atual crise e retomar a iniciativa, consolidando a vitória alcançada em 2002 pelos setores populares e democráticos?
Ilusão de classe
Vários fatores explicam a eclosão da crise, que, a bem da verdade, foi dada de bandeja para a direita. Mas todos eles parecem ter um denominador comum, como que um pecado original: a conciliação de classes. A falsa concepção de que era possível viabilizar um governo de esquerda acima das abissais contradições da sociedade, através da figura palatável e marqueteira do "lulinha paz e amor", quase levou à prematura derrota desta oportunidade ímpar de mudanças no Brasil. A idéia de um governo acima das classes, sem nitidez de projeto e sem ousadia política, deu brechas para a violenta vingança dos neoliberais em curso.
A ilusão de classe se manifestou até de forma caricatural. Foi o caso do uso dos "serviços profissionais" do trambiqueiro Marcos Valério, ex-servidor do PSDB na montagem do caixa-2 das campanhas eleitorais - como revela excelente reportagem da última Caros Amigos. Também se expressou no endeusamento do publicitário Duda Mendonça, elogiado por Lula até no seu discurso da vitória e que, depois, o apunhalou pelas costas. Esteve presente ainda no "cheque em branco" dado ao deputado Roberto Jefferson, aliado de última hora com base em compromissos pragmáticos. Ou ainda na quimera, expressa por um importante ministro, de que a mídia seria isenta diante do novo governo e que ele teria "a TV Globo nas mãos".
Afora estas cenas grotescas, a conciliação de classes esteve presente, principalmente, na manutenção e até no agravamento da política macroeconômica neoliberal. É evidente que a superação deste perverso tripé - política monetária recessiva, com juros estratosféricos e metas irreais de inflação; política fiscal restritiva, com cortes dos gastos públicos e elevado superávit primário; e libertinagem financeira - não seria tarefa fácil. Afinal, o governo FHC deixou o país quebrado, pendurado na brocha. Como alertou o intelectual José Luis Fiori, seria necessária muita cautela para desativar as bombas colocadas pelo governo anterior. Mas, ele mesmo advertiu, era preciso evitar o risco do governo se enfiar demais neste terreno minado.
Nem mesmo os economistas mais críticos da ortodoxia neoliberal avaliavam que seria possível romper de maneira abrupta com ela. Com exceção dos voluntaristas incuráveis, todos sabiam da "herança maldita" deixada por FHC, que havia estagnado a economia, tornando-a ainda mais vulnerável diante do capital financeiro e resultando numa brutal regressão social e desestruturação de classe. Exatamente por isso, os primeiros manifestos de economistas, trabalhadores e mesmo de setores do empresaria