Prefiro acreditar na paz e num futuro em que palestinos e israelenses viverão como amigos nos seus dois países. Nego-me a participar da matracagem do ódio e da guerra. Mas não estou sozinho. Tem gente mais otimista e mais importante apostando na reconciliação desses dois povos. Daniel Baremboim, por exemplo, nesta quarta-feira (23/08), em Paris, e no dia 1 de setembro, na Itália, dará dois concertos com sua orquestra já vivendo dentro desse futuro de paz e cooperação.
Trata-se da orquestra misto israelense-palestina, com 40 músicos israelenses tocando ao lado de 40 músicos árabes de maioria palestina. Vão tocar Mozart, mas já tocaram Haydn e Mendelssohn, na cidade palestina de Ramalah. Como não desafinaram e se mantiveram no mesmo tom e cadência, isso prova ser possível conviverem no cotidiano.
O sonho de criar um orquestra mista palestino-israelense não foi só do judeu-argentino Daniel Baremboim, mas igualmente do escritor e intelectual palestino radicado em Nova York, Edward Said, falecido há três anos.
Foi graças ao apoio de Said que Baremboim pôde formar profissionalmente os músicos palestinos de sua orquestra. Baremboim era criticado pela direita israelense; Said, responsável pelo novo texto da Carta dos Palestinos reconhecendo o direito à existência de Israel, criticava a ocupação dos territórios palestinos mas era, por sua vez, criticado pelos extremistas palestinos contrários à presença israelense na região.
O futuro de paz prefigurado por Baremboim e pelo falecido Edward Said parece impossível, neste momento, em que a existência de Israel voltou a ser questionada pelos palestinos do Hamas e pelo Hizbollah.
Nos anos 80, o semanário francês Nouvel Observateur tinha alertado Israel para a necessidade de se encontrar rapidamente um acordo com Arafat, lider laico dos palestinos, antes que o Hamas, movimento religioso fundamentalista muçulmano, se tornasse majoritário. Porém, nessa época, Israel prosseguia na insensata política da criação de colônias dentro dos territórios ocupados, nutrindo três ilusões: a do Grande Israel, tão cara aos religiosos, ou a de que poderia usar suas colônias para impedir o surgimento do Estado palestino ou de que poderia manter suas colônias dentro de um Estado palestino.
Os acordos de Oslo, prejudiciais para os palestinos, não chegaram a ser concretizados, assim como as tentativas de Camp David, Taba, Sharm-el Sheik e o que temia o Nouvel Observateur aconteceu - o partido do centralizador Arafat, prejudicado pelas críticas de corrupção dentro do governo, foi suplantado pelos religiosos do Hamas.
Assim, a questão do direito à existência de Israel, reconhecida em 1988 pela Organização pela Libertação da Palestina (OLP), voltou ao ponto zero, pois o Hamas rejeita a presença israelense. Ou seja, agora, a questão da resistência aos israelenses e a luta pela criação do Estado palestino passaram a ter um componente religioso prioritário que torna a situação, pelo menos por enquanto, sem saída.
Diante da posição do Hamas e do Hizbollah à existência de Israel, voltou também ao ponto zero, a discussão sobre a retirada das colônias israelenses e a partilha de Jerusalém, que poderia levar à criação do Estado Palestino, porque houve um retorno aos anos em que a OLP não reconhecia a existência de Israel.
A situação no Oriente Médio mudou e se complicou depois da guerra de invasão do Iraque pelos EUA, pois os americanos, inconsequentemente, ao destruir Sadam Hussein, fortaleceram o Irã cujo presidente Mahmoud Ahmadinejad, desafia o Ocidente com seu projeto de bomba atômica, sabendo que os EUA não têm mais condições de deflagrar uma outra guerra.
Nesse conturbado beco sem saída, tem muita gente confundindo o líder do Hizbollah, Nasrallah, como uma espécie de Che Guevara. Mas o fundamentalismo religioso islâmico nada tem a ver com o movimento laico de união dos povos árabes de Gamal Abdel Nasser.
Ao contrário, o líder druzo libanês Walid Jumblatt - que, entre um e outro bombard