Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Leon Hirszman e o cinema brasileiro

Por Urariano Mota - Leon Hirszman é um caso de cineasta que vai além do cinema. Aquilo que Noel Rosa cantou no samba Não Tem Tradução, nos versos “...Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês Tudo aquilo que o malandro pronuncia Com voz macia é brasileiro, já passou de português”

Sábado, 31 de Janeiro de 2015 às 13:00, por: CdB
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Colunista comenta o significado dos filmes de Leon Hirszman
Leon Hirszman é um caso de cineasta que vai além do cinema. Aquilo que Noel Rosa cantou no samba Não Tem Tradução, nos versos “...Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês Tudo aquilo que o malandro pronuncia Com voz macia é brasileiro, já passou de português” bem que se pode aplicar ao que penso de Leon Hirszman. Parodiando Noel, dizemos que o trabalho de Leon já passou de cinema. Mas pode ter alguma tradução, que tentarei em três curtos parágrafos. Ontem à noite, ao ver no Arte 1 dois documentários seus, eu fiquei com os olhos rasos d’água e o coração em estado de encantamento. A imagem com que ele abre o documentário Nelson Cavaquinho, com a cara de mestiço de índio e negro de Nelson, o modo respeitoso e sério e original e único com que vai para o quarto miserável,  vizinho do quarto onde dorme o compositor, na casinha pobre de Nelson. O modo como o filma caminhando entre os vizinhos da ruazinha de vila, a honestidade com que  filma o gênio de Luz Negra, do compositor de “respeite a minha dor, não cante agora, perdi meu grande amor faz uma hora”, o modo como exibe a voz embargada de Nelson Cavaquinho bêbado, ou zangado, ou sincero e verdadeiro no samba em que canta não se deve negar uma ajuda a quem necessita, eu nunca vi nada igual em toda a minha vida. Esse respeito à integridade de um compositor popular, a originalidade de imagem, da verdade na entrevista que arranca de Nelson a confissão “o samba vem da minha vida, todo o meu samba é triste,” a montagem dos vários e único Nelson Cavaquinho é tão boa, que quando acaba, recebemos um soco no estômago, de raiva: -  “Acabou?! Não pode”. Assim pensamos porque ao acabar o documentário parece ter acabado também o momento mágico de ter Nelson Cavaquinho na sala,  sob o alcance das mãos, dos olhos de uma grande fraternidade. Depois, ao ver o “Partido Alto”, em que Paulinho da Viola o auxilia, e vemos crescer a voz e a pessoa de Candeia, que puxa o samba com uma voz que liberta  e sem querer  nos move no ritmo como se nos tomasse um canto de terreiro, no sofá, e vai mais longe, vai mais fundo, com as 3 mulatas que mais parecem as 3 mulheres do sabonete Araxá de Manuel Bandeira, e vai até um clímax, quando já de noite, uma roda de samba, com a negrada toda embriagada a cantar, a negrada que somos todos nós, “eu sou eles, eu sou eles”, a vontade que dá é de pular para dentro da imagem, e começar a improvisar também no partido alto, naquela alegria alucinada que o encontro da música favorece, e quem o provou alguma vez sabe que é ótimo e nunca mais se esquece. Isso porque nessa altura  Leon Hirszman filma dentro da roda de partideiros, pois  a câmera também canta como mais um dos sambistas, e até a imagem escura na noite, a precariedade da luz é boa e sincera, só falta a gente gritar “não acende a luz”, porque se acenderem vão me ver gritando de felicidade. Então ao acabar esses dois documentários eu comentei com a minha mulher, no último domingo: esse era um cineasta que amava o povo brasileiro. Esse é o cinema que nenhum cineasta brasileiro hoje faz. O trabalho de Leon Hirszman não é uma filmagem exterior, de teoria do bar com a patota, ou sobre o mundo do lúmpen como a  classe média imagina que seja o lúmpen. Em dúvida, olhem o amor de Leon Hirszman ao Brasil aqui Nelson Cavaquinho https://www.youtube.com/watch?v=8Cra_Oj_W2E Partido Alto https://www.youtube.com/watch?v=EVmOGG6Dn74 Urariano Motaescritor e jornalista. Autor do romance Soledad no Recife, sobre o assassinato pela ditadura brasileira da militante paraguaia Soledad Barret, grávida, depois de traída e denunciada por seu próprio amante o Cabo Anselmo. Escreveu também O filho renegado de Deus e seu livro mais recente é o Dicionário Amoroso do Recife. Seu primeiro livro foi Os Corações Futuristas, um romance na época do ditador Garrastazu Médici. Na juventude publicou artigos, contos e crônicas nos jornais Movimento e Opinião. Direto da Redação é um fórum de debates, do qual participam jornalistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins
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