Para o Dia Internacional da Mulher, trazemos o exemplo dessa mulher que, aos sessenta anos de idade, aderiu, conscientemente, às ideias marxistas
10/03/2011
Lygia Prestes
Leocádia Felizardo Prestes nasceu no dia 11 de maio de 1874, em Porto Alegre (RS). Filha de família de posses, educada segundo os moldes tradicionais da época, Leocádia falava vários idiomas, era pianista, estudou pintura, canto, declamação. No entanto, ela gostaria de ser útil à sociedade e, ainda adolescente, manifestou o desejo de ser professora pública, o que não pôde ser concretizado devido aos preconceitos da época. A política e os problemas sociais muito lhe interessavam, sendo leitora apaixonada dos jornais da Corte, fato inusitado entre as jovens do seu tempo.
Em 1896, casou-se com o capitão Antônio Pereira Prestes, engenheiro militar, ex-aluno de Benjamim Constant, na Escola Militar do Rio de Janeiro, que havia participado, ainda cadete, da proclamação da República. Homem de vasta cultura, muito contribuiu para que Leocádia ampliasse seus conhecimentos desenvolvesse o interesse pela política e pelas questões sociais.
A morte prematura do marido deixou-a em situação muito precária. Na época, a pensão de viúva de capitão do Exército, não era suficiente para o sustento dos filhos. Deu aulas de idiomas e de música, trabalhou de modista, foi balconista e costurou para o Arsenal de Marinha. Finalmente, em 1915, conseguiu ser nomeada professora da Escola Pública, cargo que exerceu até 1930. Trabalhava à noite, nos cursos destinados a comerciárias, operárias e domésticas. Pela primeira vez em sua vida, Leocadia pôde ter contato com as camadas mais pobres da sociedade e isso aguçou sua revolta contra as injustiças sociais.
Na educação dos filhos, sua grande preocupação foi sempre a de incutir-lhes o amor ao trabalho e o sentimento do dever cívico. Procurou mostrar-lhes os aspectos negativos da vida, ensinando-os a enfrentar com altivez a violência e as arbitrariedades dos poderosos e a jamais se curvar ante as injustiças.
A árdua luta pela sobrevivência não fez diminuir seu interesse pelo que ocorria na sociedade e no mundo. Mesmo nos momentos mais difíceis, em sua casa podia faltar pão, mas nunca faltou pelo menos um jornal diário, para acompanhar os acontecimentos políticos, que discutia e comentava com os filhos.
Incentivo à luta
Em 1922, quando seu filho Luiz Carlos Prestes, já oficial do Exército, começa a participar da preparação do primeiro levante tenentista, ela lhe daria todo o apoio, incentivando-o a continuar a luta, após a derrota do movimento.
Em outubro de 1924, com o levante de Santo Ângelo (RS), liderado por Luiz Carlos Prestes, tinha início a grande marcha através do Brasil que duraria até fevereiro de 1927. Foram anos muito duros para as famílias dos participantes da Coluna Prestes. As únicas notícias que recebiam eram as fornecidas pelo governo, sempre as piores possíveis: a Coluna teria sido dizimada, seus chefes exterminados. Mais de uma vez os jornais do Rio abriram manchetes sensacionalistas anunciando a morte de Prestes e de seus companheiros. Leocádia, mesmo sabendo que a vida de Prestes corria perigo, nunca perdeu a coragem e a confiança no filho. Jamais alguém a viu chorar. Sua firmeza impressionava a todos que a conheciam. Em pouco tempo, sua casa tornou-se a Meca das famílias dos demais revolucionários, que a procuravam em busca de alento e consolo.
No início de 1927, com a suspensão da censura à imprensa, os feitos heroicos da Coluna tornaram-se conhecidos da opinião pública, comovendo o país. Luiz Carlos Prestes passou a ser considerado herói nacional – o Cavaleiro da Esperança – e Leocádia Prestes a Mãe de todos os brasileiros. Sua modesta casa de subúrbio fervilhava de amigos, admiradores e políticos de todos os matizes.