Ele era apenas oito anos mais velho, mas para quem estava perto dos vinte a diferença era enorme. Retomei o contato numa livraria em Bertioga, onde passava parte de minhas férias, folheando o que havia de novo entre os lançamentos.
O velho hábito de ler alguns trechos antes de me decidir se mostrou mais uma vez eficiente. Ao sair, já não via a hora de chegar à casa de veraneio, cedida por meu amigo Eber, para continuar a leitura.
Naquela época passada, ele assinava seus artigos simplesmente como José e escrevia numa coluna dominical na Tribuna de Santos. Eu era um peixeiro por adoção, meus pais tinham deixado o interior e chegado no litoral paulista quando tinha apenas dois anos.
Vivera minha infância e começo da adolescência no Morro de São Bento, antes de mudar para o Marapé e ali estava quando uma enxurrada de lama derrubou e soterrou casas e dezenas de pessoas. Uma tragédia documentada com fotos pela Tribuna e que nos obrigou também a mudar, por não acharmos seguro o lugar onde vivíamos. A catástrofe foi conhecida por todo país pelo samba Adeus Marapé.
Nessa época, conta José no seu livro, ele era um repórter decidido a entrar na lama para ajudar os sobreviventes, sob as ordens de um engenheiro da prefeitura santista, que não descansou e nem dormiu naquela madrugada. O engenheiro se tornou, bem mais tarde, governador de São Paulo.
José me transportou com seu livro àquele tempo distante da minha Santos de adoção, que venho redescobrindo a cada viagem e para onde transferi meu enderêço da OAB. Praticamente, por volta de meia-noite quando a família dormia, eu abria o Código da Vida do José, Saulo Ramos, para navegar no passado. Lembrar do magrelo Mario Covas Jr , para o qual escrevi uma carta aos 19 anos, logo depois de ter deixado o 6GcosM, na época perto da Conselheiro Nébias, onde fiz meu serviço militar e onde logo depois serviu também Pelé.
Meu pai lia todos os domingos o Semanascópio. Ex- frequentador das células comunistas do Morro de São Bento, tinha abandonado o marxismo para frequentar a igreja presbiteriana do reverendo Boanerges Ribeiro e aderir, mais tarde ao janismo.
Não sei exatamente quando fiquei sabendo o nome verdadeiro do José, mas tenho a impressão de ter sido nas aulas de latim para o vestibular com o professor Aulicino, onde havia um belo poema, num quadro na parede, assinado por Saulo Ramos e dedicado ao seu pai. Não sei porque mas tenho a impressão de que na sala onde repassávamos o latim, havia também uma cópia do seu retrato, desenhado por Portinari, como ele de Brodoski.
Saulo Ramos cursou a toda nova Faculdade Católica de Direito de Santos, eu deixei meus colegas Forbes, Isamar pelo Largo de São Francisco.
Grande bobagem a minha. Da faculdade de Santos saiu um dos maiores juristas do Brasil. José era jornalista e virou advogado, me formei pela USP mas virei jornalista.
Nunca nos encontramos. Estranhei, já vivendo na Suíça, ser Saulo Ramos ministro da Justiça de Sarney, lendo seu livro deixei de estranhar. Mexendo numa estante, descobri entre os papéis guardados por meu pai, uma reportagem de Saulo Ramos em Cuba com Jânio Quadros, mencionada em seu livro.
De volta aqui a Berna, antes de chegar a Munique, onde fazia escala, ainda lia o livro e me faltavam uma dez páginas quando aterrissamos. Ajudando minhas filhas a pegar suas bagagens esqueci o volumoso livro sem terminá-lo.
Vendo minha frustração, Hanna, minha mulher, fez diversas ligações para a Lufthansa tentando localizar o livro. Sem sucesso. Comprarei de novo, mas só no próximo ano. Exceto se o José, que nunca conheci mas do qual teria sido amigo, me mandar suas últimas dez páginas.
Não temos as mesmas idéias em muitas coisas mas nunca fui adepto de um mundo uniforme. E outra coisa, ele escreve com o mesmo sabor antigo das colunas Semanascópio que, durante muito tempo, foram um modelo para mim.
O velho hábito de ler alguns trechos antes de me decidir se mostrou mais uma vez eficiente. Ao sair, já não via a hora de chegar à casa de veraneio, cedida por meu amigo Eber, para continuar a leitura.
Naquela época passada, ele assinava seus artigos simplesmente como José e escrevia numa coluna dominical na Tribuna de Santos. Eu era um peixeiro por adoção, meus pais tinham deixado o interior e chegado no litoral paulista quando tinha apenas dois anos.
Vivera minha infância e começo da adolescência no Morro de São Bento, antes de mudar para o Marapé e ali estava quando uma enxurrada de lama derrubou e soterrou casas e dezenas de pessoas. Uma tragédia documentada com fotos pela Tribuna e que nos obrigou também a mudar, por não acharmos seguro o lugar onde vivíamos. A catástrofe foi conhecida por todo país pelo samba Adeus Marapé.
Nessa época, conta José no seu livro, ele era um repórter decidido a entrar na lama para ajudar os sobreviventes, sob as ordens de um engenheiro da prefeitura santista, que não descansou e nem dormiu naquela madrugada. O engenheiro se tornou, bem mais tarde, governador de São Paulo.
José me transportou com seu livro àquele tempo distante da minha Santos de adoção, que venho redescobrindo a cada viagem e para onde transferi meu enderêço da OAB. Praticamente, por volta de meia-noite quando a família dormia, eu abria o Código da Vida do José, Saulo Ramos, para navegar no passado. Lembrar do magrelo Mario Covas Jr , para o qual escrevi uma carta aos 19 anos, logo depois de ter deixado o 6GcosM, na época perto da Conselheiro Nébias, onde fiz meu serviço militar e onde logo depois serviu também Pelé.
Meu pai lia todos os domingos o Semanascópio. Ex- frequentador das células comunistas do Morro de São Bento, tinha abandonado o marxismo para frequentar a igreja presbiteriana do reverendo Boanerges Ribeiro e aderir, mais tarde ao janismo.
Não sei exatamente quando fiquei sabendo o nome verdadeiro do José, mas tenho a impressão de ter sido nas aulas de latim para o vestibular com o professor Aulicino, onde havia um belo poema, num quadro na parede, assinado por Saulo Ramos e dedicado ao seu pai. Não sei porque mas tenho a impressão de que na sala onde repassávamos o latim, havia também uma cópia do seu retrato, desenhado por Portinari, como ele de Brodoski.
Saulo Ramos cursou a toda nova Faculdade Católica de Direito de Santos, eu deixei meus colegas Forbes, Isamar pelo Largo de São Francisco.
Grande bobagem a minha. Da faculdade de Santos saiu um dos maiores juristas do Brasil. José era jornalista e virou advogado, me formei pela USP mas virei jornalista.
Nunca nos encontramos. Estranhei, já vivendo na Suíça, ser Saulo Ramos ministro da Justiça de Sarney, lendo seu livro deixei de estranhar. Mexendo numa estante, descobri entre os papéis guardados por meu pai, uma reportagem de Saulo Ramos em Cuba com Jânio Quadros, mencionada em seu livro.
De volta aqui a Berna, antes de chegar a Munique, onde fazia escala, ainda lia o livro e me faltavam uma dez páginas quando aterrissamos. Ajudando minhas filhas a pegar suas bagagens esqueci o volumoso livro sem terminá-lo.
Vendo minha frustração, Hanna, minha mulher, fez diversas ligações para a Lufthansa tentando localizar o livro. Sem sucesso. Comprarei de novo, mas só no próximo ano. Exceto se o José, que nunca conheci mas do qual teria sido amigo, me mandar suas últimas dez páginas.
Não temos as mesmas idéias em muitas coisas mas nunca fui adepto de um mundo uniforme. E outra coisa, ele escreve com o mesmo sabor antigo das colunas Semanascópio que, durante muito tempo, foram um modelo para mim.