Quem viveu e viu, ou mesmo, quem leu ou escutou a história da América Latina, depois da II Guerra Mundial, sabe que neste início do século XXI, está acontecendo algo extraordinário neste continente, talvez uma ruptura revolucionária. Basta olhar para trás, para perceber as notáveis convergências e continuidades que marcaram a história latino-americana: durante suas "guerras de formação", na primeira metade do século XIX; na hora de sua integração "primário-exportadora" à economia industrial européia, depois de 1870; ou mesmo, no momento de sua reação defensiva e "desenvolvimentista", frente à crise mundial, da década de 1930. Mas não há dúvida que depois da II Guerra Mundial, esta "convergência" aumentou muito mais, já agora com ajuda explícita da política externa global dos Estados Unidos.
Logo depois do início da Guerra Fria, ainda nos anos 40, quase todos os países do continente colocaram na ilegalidade, simultaneamente, os seus Partidos Comunistas. Apesar de que só em alguns casos, a perseguição aos comunistas tenha chegado ao extremo do Chile, que os prendeu e confinou em campos de concentração, nas regiões mais frias e desérticas do país. Na década de 50, esta mesma "convergência latino-americana" reapareceu na derrubada simultânea de vários governos eleitos democraticamente, como no caso da Guatemala, do Brasil, da Argentina e da Colômbia. Apesar de que só no caso da Guatemala, houve uma intervenção norte-americana direta, e a repressão e assassinato de mais de 200 mil pessoas. Muito mais do que na Colômbia do ditador Perez Jimenez, e na Nicarágua e Cuba dos ditadores Anastázio Somoza e Fulgêncio Batista, apoiados igualmente pelos Estados Unidos.
Logo em seguida, nas décadas de 1960 e 1970, esta velha sintonia continental aumentou ainda mais, depois da frustrada invasão de Cuba, em 1961, seguida de uma série de golpes militares que instalaram regimes ditatoriais em quase toda a América Latina. Apesar de que em nem todos os países as ditaduras tenham tido o mesmo nível de violência do Chile, onde estima-se que tenham morrido mais de 20 mil pessoas, e da Argentina, onde foram assassinados ou desapareceram cerca de 35 mil pessoas. Na década de 80, a redemocratização simultânea do continente ocorreu no mesmo momento em que a violência da "2ª Guerra Fria" (1982-1985) do presidente Ronald Reragan atingiu a América Central e o Caribe, como se fosse um tufão. Mesmo quando ela não tenha atingido a todos com a mesma intensidade que El Salvador, onde foram mortos ou assassinadas, em poucos anos, mais de 75.000 salvadorenhos.
Com o fim da Guerra Fria, na década de 1990, a "indução" norte-americana e a convergência dos "latinos" se deslocou para o campo das políticas econômicas. Como parte de renegociação de suas dívidas externas, quase todos os estados da região adotaram um programa comum de políticas e reformas liberais que abriu, desregulou e privatizou suas economias nacionais, "clonificando" os governos neoliberais de Salinas, Andrés Perez, Menem, Cardoso e Fujimori. Com o passar do tempo, entretanto, o novo modelo econômico instalado pelas políticas liberais não cumpriu sua promessa de crescimento econômico sustentado e diminuição das desigualdades sociais. Na virada do novo milênio, a frustração destas expectativas contribuiu, decisivamente, para a nova inflexão sincrônica do continente que está em pleno curso: uma virada massiva e democrática à esquerda, de quase todos os países da América do Sul, e talvez, em breve, do México.
Neste sentido, a recente eleição de Evo Morales, na Bolívia, foi apenas um ponto de uma trajetória e de uma convergência que pode seguir durante o ano de 2006. Apesar de que nem todos os novos governantes tenham feito o mesmo que o presidente argentino, Nestor Kirchner, ao denunciar ao presidente Bush, face a face, na abertura da IV Cumbre de las Américas, que " as políticas aplicadas na América Latina, sob liderança dos EUA, não só provocaram miséria e pobreza , mas tam