Cinco séculos depois de os europeus terem imposto o catolicismo ao Novo Mundo, numa conquista territorial que matou milhões de pessoas, os latino-americanos que abraçaram a fé pedem que o próximo papa venha de sua região.
Há vários candidatos latino-americanos fortes. Se um deles for eleito, isso representaria uma transferência do poder da Igreja a uma região que possui metade dos católicos do mundo. Muitos acham que já é mais que hora.
- Na Europa, as pessoas já perderam sua religião. Carregamo-na dentro de nós, é onde ela vive - disse Rosa Godinez, uma mulher de meia-idade que estava diante da igreja da Virgem dos Remédios, no alto de uma pirâmide pré-hispânica na cidade mexicana de Cholula.
Cholula era uma importante cidade asteca, que também era um centro religioso, quando o conquistador espanhol Hernán Cortes chegou em 1519. Os astecas planejaram uma emboscada, mas ela foi denunciada e as forças espanholas atacaram primeiro, matando milhares de pessoas num massacre de um único dia.
A cidade foi saqueada pelos aliados dos espanhóis e centenas de templos pagãos foram destruídos.
- Diz a lenda que o sangue corria como um rio - afirmou o historiador local Manuel Tlatoa.
- Para dominar as pessoas, ataca-se sua religião, sua cultura, sua filosofia. Matou o coração das pessoas.
Os espanhóis, que lutaram no lombo de cavalos e armados com mosquetes e canhões, destruíram o império asteca onde hoje fica o México e os incas no Peru nas décadas subsequentes, enquanto vasculhavam o Novo Mundo em busca de ouro e prata, impondo o catolicismo às sociedades pagãs.
A religião foi adotada em toda a América Latina, e o continente permanece predominantemente católico. Os jovens das cidades costumam ignorar as orientações da Igreja sobre a contracepção, o divórcio e o sexo, mas os costumes conservadores e os valores familiares são mais fortes que na Europa.
Muitos querem que o Vaticano reconheça isso e escolha um latino-americano para comandar a Igreja.
- Acho que poderia ser um latino-americano porque nosso senhor veio dos pobres, e os pobres estão aqui - disse Jazmin Gomez, uma balconista de Santiago, no Chile.
Autoridades eclesiais também afirmam que os cardeais do conclave terão de levar a América Latina em conta.
- Quem quer que seja eleito papa tem de pensar que o maior número de católicos está concentrado neste continente, e, por consequência, acho que quando estiverem votando vão pensar na América Latina - disse o cardeal dominicano Nicolas de Jesus Lopez Rodriguez, um dos possíveis candidatos.
Para o monsenhor Baltazar Porras, presidente da conferência dos bispos da Venezuela, um papa latino-americano representaria um avanço para "um continente de esperança". Ele também acredita na possibilidade de um pontífice africano.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já disse estar torcendo por um papa brasileiro - o candidato mais forte é o arcebispo de São Paulo, cardeal Cláudio Hummes.
Hummes, por sua vez, disse que a nacionalidade do papa não é importante:
- A Igreja é universal por definição, portanto, embora seja plenamente possível que o sucessor venha de qualquer país, inclusive da América Latina, o mais importante é que elejamos o homem ideal, independentemente de sua origem.
Outros candidatos possíveis são o cardeal hondurenho Oscar Andres Rodriguez Maradiaga, o argentino Jorge Mario Bergoglio e o colombiano Dario Castrillon Hoyos.
Latino-americanos torcem por um papa da região
Quinta, 07 de Abril de 2005 às 12:42, por: CdB