Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Lances midiáticos da eleição presidencial

Por Mário Augusto Jakobskind - E acabou a campanha eleitoral do primeiro turno. Os debates nidiáticos em nada ajudaram no sentido de fazer o eleitor conhecer como os aspirantes à Presidência da República pretendem governar se forem eleitos.

Domingo, 05 de Outubro de 2014 às 12:35, por: CdB
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Terminou a campanha eleitoral do primeiro turno e é o momento para o colunista fazer um balanço geral
E acabou a campanha eleitoral do primeiro turno. Os debates midiáticos em nada ajudaram no sentido de fazer o eleitor conhecer como os aspirantes à Presidência da República pretendem governar se forem eleitos. A própria pauta das perguntas parecia evitar exatamente um posicionamento em questões vitais, como, por exemplo, a dos aposentados, que a cada ano têm o poder aquisitivo reduzido, o salário mínimo e assim sucessivamente. Ficou claríssima a necessidade urgente de uma reforma política, até mesmo para evitar a proliferação de partidos de aluguel e o surgimento de candidatos sem eira nem beira e até mesmo com posicionamentos homofóbicos. Muito provavelmente as emissoras de televisão que promoveram os debates agiram deliberadamente no sentido despolitizar a política. Teve até púlpito onde os candidatos ficavam fisicamente frente a frente. Aí vigorou o esquema senso comum. Quem estava indeciso dificilmente teve condições de formar opinião, a não ser que simpatizasse com a imagem do candidato ou candidata. Certamente não é a melhor forma de alguém se posicionar. A cobertura da mídia valeria um estudo mais aprofundado da área acadêmica, para que daqui mais alguns anos as gerações conhecerem como se comportaram os vários espaços, sejam eletrônicos ou impressos. No caso dos jornalões e telejornalões se confirma o que tem dito o jornalista Ignácio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, ou seja, que a mídia deixou de ser quarto poder para se tornar aparelho ideológico dos setores conservadores. Tanto no Rio como em São Paulo houve uma grande forçada de barra contra a candidata Dilma Rousseff. Os jornalões se dividiram entre o apoio a Marina Silva e Aécio Neves. Num primeiro momento, Marina ganhou a preferência, mas aos poucos o apoio, ostensivo ou não, foi voltando para o candidato Aécio Neves. Alguns colunistas de sempre que o digam. Na edição da última sexta-feira (3), enquanto os institutos de pesquisas e mesmo alguns colunistas mais independentes aventavam a possibilidade de um desfecho da eleição no primeiro turno em favor da Presidenta Dilma Rousseff, O Globo estampava em manchete que Marina e Aécio disputavam palmo a palmo os votos para ver quem chegaria ao segundo turno. O jornal mais vendido do Rio de Janeiro já dava antecipadamente como absolutamente certa a realização de um segundo turno. O jornal O Dia disputava o interesse dos eleitores estampando na manchete que Dilma Rousseff poderia decidir a eleição no primeiro turno. Este artigo foi escrito antes de se conhecer o resultado da eleição deste domingo. Pode dar um resultado ou outro, mas o que pega mal é se antecipar o que o jornal se empenhou para que acontecesse e até distorcer a cobertura para induzir o leitor a aceitar como fato consumado um segundo turno. Uma pesquisa do Ibope divulgada no sábado (4) apontava Dilma na frente com 46% dos votos, o que pode indicar vitória no primeiro turno. O maior culpado Nada mudou em termos de financiamento das campanhas pelo setor empresarial e financeiro. Ao Ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes deve-se atribuir a culpa pela continuidade. Ele pediu visto dos autos do processo em que a maioria dos Ministros já havia decidido pelo fim desse tipo de financiamento. Seja qual for à decisão de Mendes, os Ministros do STF já formaram opinião contrária, conforme indica a votação da maioria. Ou seja, não haverá alteração da posição dos Ministros, mas mesmo assim a eleição de 2014 é regida pelo que a maioria do pleno do STF é contra e possivelmente a maior parte dos brasileiros não comprometidos com esquemas dessa natureza. A América Latina inteira está de olho na eleição brasileira. Articulistas desta região deixam claro que estão em jogo dois tipos de posicionamentos, sobretudo em matéria de política externa. Ou se avança no caminho da integração e fortalecimento do bloco regional Mercosul, ou o continente verá um recuo aos tempos vergonhosos da subserviência do gênero ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) e assim sucessivamente. Na eleição brasileira tudo isso está em jogo. Sucessão de Mujica No vizinho Uruguai, os eleitores preparam-se para escolher, no domingo, 26 de outubro, o sucessor do Presidente José Mujica. Se houver um segundo turno a eleição será em 30 de novembro. Pela legislação uruguaia, o Presidente está impedido de se reeleger, podendo se candidatar numa próxima oportunidade, no caso Mujica em 2019, mas será difícil isso acontecer devido à idade do dirigente uruguaio (daqui cinco anos terá 84) A Frente Ampla, que reúne os partidos de esquerda lançou como candidato Tabaré Vásquez, que já tinha sido presidente antes de Mujica. O seu vice é o também médico, como Vásquez, Raul Sendic, filho do fundador do movimento Tupamaros. Os outros dois concorrentes são Luis Lacalle Pou, filho do ex-presidente conservador Alberto Lacalle e Pedro Bordaberry, filho do ainda mais conservador Juan Maria Bordaberry, um dos responsáveis pelo golpe de 1973, que contou com o apoio da ditadura brasileira; Outro candidato é Pablo Mieres, do Partido independente. Se houver segundo turno aqui no Brasil, a eleição será na mesma data que a do Uruguai. Lá está também em jogo a continuidade de um projeto progressista, iniciado pelo próprio Tabaré Vásquez ou o retorno a uma política de total subserviência, como aqui no Brasil nos tempos de Fernando Henrique Cardoso. A América Latina aguarda com expectativa o resultado das urnas de lá e daqui. No domingo, 12 de outubro, os bolivianos deverão dar um novo mandato, o terceiro, a Evo Morales, segundo as pesquisas, já na eleição do primeiro turno. Em tempo: o filho da blogueira cubana Yoany Sanchez ingressou na Universidade de Havana. Isso apesar de Sanchez considerar o ensino em Cuba uma “calamidade”. Vale lembrar que a blogueira agora viaja para lá e para cá e recebe prêmios e prêmios, inclusive em espécie, por sua ação contra o regime cubano. A opinião dela entra em choque com o Banco Mundial, que considera o ensino em Cuba o melhor da América Latina. Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil); preside a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI – seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla (no prelo). Direto da Redação é um fórum de debates, do qual participam jornalistas colunistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins.
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