Poucos edifícios do mundo são festejados em anúncios na televisão, uma exposição em todos os museus da cidade e réplicas em miniatura feitas de chocolate. Mas o teatro de ópera La Scala, em Milão, não é qualquer edifício.
Construído no século 18, o teatro, cuja história está intimamente interligada à da própria Itália, reabre nesta terça-feira após uma reforma que durou três anos e durante a qual a companhia do teatro foi exilada para um salão na periferia industrial de Milão.
A cidade está repleta de comemorações festejando a volta do teatro.
"O La Scala é o coração de Milão. Estávamos com muita saudade dele", disse Lavinia Larocca, nascida e criada em Milão.
O teatro que abrigou as primeiras noites em cena do "Otello", de Verdi, e do "Turandot", de Puccini, foi o favorito de grandes nomes da ópera como Maria Callas e Giuseppe di Stefano. Além disso, ocupa um lugar especial nos corações de todos os milaneses.
Cheios de expectativa, as pessoas que visitam Milão muitas vezes se decepcionavam com o pórtico pequeno do teatro e sua fachada neoclássica discreta. É apenas em seu interior que os detalhes extravagantes em ouro e carmim fascinam com sua exuberância.
Mas mesmo seu interior tinha começado a decepcionar.
O carpete vermelho estava manchado, a pintura cor creme e dourado, estragada, os assentos de veludo estavam sujos, e os encanamentos apresentavam problemas.
A situação nos bastidores era ainda pior. O labirinto de corredores, camarins construídos de maneira desordenada e pouco espaço para armazenamento estava prejudicando a capacidade do La Scala de encenar óperas de primeira categoria, além de preocupar seriamente os bombeiros.
Apesar das falhas evidentes, os italianos relutaram em concordar com a reforma.
A reação foi de ultraje quando o palco foi reduzido a um enorme buraco no chão, uma torre bege de 38 metros de altura foi erguida atrás da fachada de 200 anos, e um bloco oval colocado sobre o prédio ao lado, para abrigar guarda-roupas e escritórios do teatro.
Além dessas "monstruosidades" todas, o custo da obra superou o orçamento em 20 por cento, chegando a 60 milhões de euros (80,07 milhões de dólares), o que causou mais indignação.
Mas os milaneses se renderam ao novo La Scala, graças em grande medida a seu exigente diretor musical, Riccardo Muti. Quando o maestro fez seu primeiro ensaio no teatro reformado, ficou maravilhado.
Para Muti, a principal mudança diz respeito à acústica.
No teatro antigo, as poltronas da primeira fileira tinham sido montadas sobre os destroços de uma bomba da 2a Guerra Mundial, local que foi recoberto de concreto e de um carpete que sugava o som para dentro. Tudo isso foi retirado e recoberto por 12 camadas de material ressonante e um piso de carvalho que reflete os sons por todo o teatro.
Nos camarotes que se erguem a partir das poltronas, placas de linóleo foram arrancadas, revelando os pisos originais de terracota.
A aparência do teatro é igual à de quando a casa fechou, em 2001, só que mais limpa. Nas partes não aparentes, porém, o La Scala foi levado diretamente para o século 21.
Um novo conjunto de máquinas de palco e um palco extra agora têm capacidade para três óperas de uma vez, elevando o La Scala para os padrões do Metropolitan de Nova York e do Covent Garden de Londres. As trocas de cenário podem ser dramáticas e muito mais rápidas.
Para a noite de sua volta em cena, o La Scala está encenando a mesma ópera de quando o teatro primeiro abriu, em 1778: "L'Europa Riconosciuta", de Antonio Salieri.
Os presidentes norte-americano, George Bush, e russo, Vladimir Putin, e o premiê britânico Tony Blair recusaram os convites para a noite que está sendo apelidada de "um G8 na Ópera".
Mas todos os grandes nomes da Itália estarão presentes. O estilista Giorgio Armani talvez entre de mãos dadas com a atriz Sophia Loren. O primeiro-ministro Silvio Berlusconi deverá comparecer com sua família.
Como o teatro só tem capacidade para