Rio de Janeiro, 26 de Abril de 2026

Kucinski mostra fraturas na imagem do governo

A entrevista do assessor da Presidência Bernardo Kucinski à Alice Sosnowski, da Agência Repórter Social caiu feito bomba na área de Comunicação do governo: "Não há o menor planejamento na comunicação", disse ele. (Leia Mais)

Sexta, 13 de Janeiro de 2006 às 11:53, por: CdB

"Não há o menor planejamento na comunicação governamental".
"Lula eliminou a necessidade da imprensa: fala e não se submete ao questionamento".
"Gushiken não era do ramo".
"Políticos do governo fazem vazamentos para a mídia por disputas internas".
"Duda ficava dos dois lados do balcão: como palpiteiro do governo e quem ia fazer as ações de comunicação".

Estas frases não pertencem a um opositor do governo, mas a um membro da equipe do próprio governo Luiz Inácio Lula da Silva, membro da cúpula da Secretaria de Comunicação Social. Alguém com acesso direto ao presidente, que diariamente faz a ele a leitura de suas "cartas críticas", analisando a cobertura da imprensa e sugerindo ações. A entrevista do assessor da presidência Bernardo Kucinski a Alice Sosnowski, da Agência Repórter Social, continua repercutindo nos meios jornalísticos e políticos do país, a ponto de ser "um marco nas relações entre o governo e a imprensa", segundo o editor do Observatório da Imprensa, Alberto Dines. Kucinski acorda às 5h da manhã, lê os jornais nacionais, internacionais e faz uma análise da conjuntura a partir do que leu. No documento, Kucinski comenta sobre o noticiário sobre as ações do governo, suas repercussões e analisa as matérias da imprensa, com atenção maior para os pontos subliminares.

- Ninguém tem coragem para dizer a verdade para o presidente claramente e eu digo todos os dias de manhã - afirma.

Um dos intelectuais de comunicação mais importantes do Brasil atualmente, o jornalista Bernardo Kucinski, professor licenciado da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), não ataca apenas o governo, mas a imprensa. Identifica um "macarthismo", uma "cruzada moral" na cobertura da crise, diz que os repórteres são despreparados e os colunistas só têm espaço na mídia porque dizem o que o poder quer.

A seguir, os principais trechos da entrevista dada com exclusividade à Agência Repórter Social.

Relação de Lula com a Imprensa

"Sempre foi muito ruim. Ele sempre foi muito maltratado pela imprensa, tirando alguns períodos - como em certo momento da greve de 1978. Fora alguns períodos, ele sempre foi muito desrespeitado. Os jornalistas não aceitam um líder político que não tenha diploma."

Coletivas

"O erro que o Lula cometeu foi quando ele virou presidente. Ele não soube dissociar sua pessoa, o político que vem sendo perseguido faz anos, da figura do presidente. O presidente tem por obrigação receber a imprensa. Não importa o que ela vai fazer depois. É uma obrigação institucional. Lula eliminou a necessidade da imprensa. Passou a se comunicar diretamente, através das falas, do café, dos discursos. Ele fala e não se submete ao questionamento. O governo até poderia ter feito isso se, ao mesmo tempo, estabelecesse um rito de coletiva, como todos os governos de países importantes fazem. Uma vez, duas vezes por semana ou todos os dias. Sempre no mesmo lugar, com o escudo do Brasil atrás".

O PT e a Comunicação

"A falha é do grupo que chegou ao poder. O PT tem uma tradição curiosa nessa análise. Ele tem propostas de políticas públicas para várias áreas: saúde, educação, agricultura, mas para comunicação não tem. As que ele tem, que os grupos de ativistas chegaram a fazer, nunca foram incorporadas pelo partido. Não há o menor planejamento".

Duda Mendonça

"A presença do Duda Mendonça foi perturbadora. Ele passou a circular no governo de maneira informal. Não era ministro de nada, era contratado pelo governo para fazer ações de comunicação. Na minha opinião, ele não podia ao mesmo tempo ser palpiteiro do governo e quem ia fazer as ações. Nem as empresas privadas fazem isso. Você apresenta sua demanda, a empresa de comunicação apresenta a proposta e você aprova ou rejeita. Ali não. O Duda ficava dos dois lados do balcão".

Luiz Gushiken

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