O Homem Aranha tece teias, escala edifícios e quebra recordes de bilheteria. Mas não sabe cantar, não consegue dançar e não tem a menor idéia de como amar.
Formando uma contrapartida elegante à teia que "Homem Aranha 2" está tecendo nas bilheterias, "De-Lovely", um musical sobre a vida de Cole Porter, o "super-herói" da composição de canções, estréia nesta sexta-feira nas maiores cidades norte-americanas, respaldado por ótimas críticas.
Kevin Kline faz o papel de Porter, que era abertamente gay, enquanto Ashley Judd é Linda, sua musa, eterna admiradora e esposa. Astros pop como Sheryl Crow e Robbie Williams cantam músicas como "Night and Day", que agradam aos fãs mais velhos há décadas e ainda emocionam jovens hoje em dia.
O misto de amor duradouro, temas gays, popstars e a música de Cole Porter foi o que primeiro cativou os criadores de "De-Lovely", e eles esperam que também agrade a um público amplo.
"A história pessoal de Porter despertou meu interesse", contou o diretor Irwin Winkler. "As contradições em sua vida, e a música".
Ao lado de Irving Berlin, Porter é visto como um dos maiores compositores americanos, responsável por sucessos que alcançaram desde a Broadway até Hollywood, como "Let's Do It, Let's Fall In Love", "Just One of Those Things", "Love For Sale" e muitos outros.
Suas canções voltaram à tona no início dos anos 1990 em CDs como "Red, Hot and Cool", quando conquistaram uma nova base de fãs mais jovens.
Mas a vida de Porter como homossexual, algo que era apenas mal disfarçado pelo casamento com Linda, fez com que fosse quase impensável contar sua história em um filme. Em 1946, Cary Grant representou Porter em "A Canção Inesquecível" ("Night and Day"), mas o filme foi uma obra fictícia que passou por cima de sua condição homossexual.
Em "De-Lovely", o estilo de vida de Cole Porter é mostrado sem meias palavras, mas tanto Kevin Kline e Ashley Judd quanto os criadores do filme dizem que descrever a fita como um filme gay ou dizer que seu casamento foi uma união de conveniência seria um erro.
"Não se trata de um filme sobre um gay. É um filme sobre um grande compositor e uma história de amor singular", disse Kline. "O filme formula a pergunta sobre o que é o amor. Se você analisa as canções de Cole Porter, vê que muitas delas exploram o amor".
A história da relação de Porter com Linda é narrada em flashbacks, quando Porter chega perto do fim da vida.
A trama começa em Paris, na década de 1920, quando Porter conhece Linda, e se desloca para seus anos de triunfo no teatro de Nova York e, em seguida, para Hollywood, quando ele fez sucesso nos velhos musicais da MGM. Há cenas de tragédia, também, como um acidente com cavalo que o deixou aleijado.
Durante todo esse percurso Porter mantém relacionamentos com homens, mas mais importante do que eles é seu amor duradouro por Linda. Suas canções são compostas para ela, sobre ela.
Linda, por sua vez, o ama por razões que não têm nada a ver com a sexualidade. Porter é espirituoso, inteligente, talentoso e bondoso. É o homem da vida dela.
"Essas duas pessoas passaram 35 anos casadas, algo que não acontece por acaso. Tiveram uma relação muito profunda que simplesmente não era baseada no sexo", disse Ashley Judd.
"Homem Aranha 2" já fez manchetes com sua bilheteria inicial de mais de 40 milhões de dólares, mas, num ano em que o casamento entre gays vem fazendo manchetes e virando questão constitucional nos Estados Unidos, a vida e os amores de Cole Porter garantem um bom papo pós-cinema -- e, é claro, algumas canções.