Se Kanye Weste era mesmo a presença mais aguardada do TIM Festival deste ano, o rapper, então, não decepcionou. Seu show estava marcado para as 21h30min, mas o astro entrou no palco com mais de uma hora de atraso, por volta das 22h40min. Palco que tinha formato de uma viagem pelo espaço, enquanto Kanye, sozinho o tempo todo, “falava” com sua nave (em um momento ele diz, dentro do já programado roteiro: “nós somos apenas uma grande e estúpida nave quebrada).
No início, a batida do mega hit Stronger animou os presentes, mas foi apenas um sinal. Ele começou mesmo com Good Morning, bem recebida pelo púbico. E depois jogou outros sucessos de seu último álbum, Graduation, como I wonder, Champion. O único que dividiu o palco com West foi um estranho “monstro” (um dinossauro, talvez?) com o qual ele lutou para logo levar a platéia – formada por muitos jovens, playboys, aspirantes a rappers e fãs adolescentes acompanhados dos pais – ao delírio com Can’t tell me nothing e, logo depois, Flashing Lights.
Na linha de boa parte dos rappers americanos, Kanye é conhecido por ser um homem de poucos sorrisos e ele comprovou isto durante a apresentação. Ainda assim, quando via boa parte da platéia com as mãos para cima, cantando com ele ou fazendo o tradicional “hey oh” do rap, ele logo abria um leve sorriso e parecia satisfeito com a boa recepção.
Saindo um pouco de Graduation, que foi mesmo a base do show, Kanye apresentou seu primeiro grande sucesso, All falls down (do álbum The College Dropout) e duas do segundo álbum, Late Registration: Gold Digger, parceria sua com o ator Jamie Foxx, e Touch the sky.
Outro sucesso do primeiro álbum – e talvez a melhor faixa dele –, Jesus Walks antecedeu o ápice do momento anos 80 do show: um trecho de Don’t stop believing, do grupo Journey. Anos 80 que ficou o tempo todo caracterizado pelas roupas de Kanye (sobretudo pelo tênis, que parecia saído de um gueto do Brooklyn da época) e pelas alusões à Guerra nas Estrelas.
Aí, finalmente, veio Stronger, com seu inconfundível sampler de Harder, better, faster, stronger do duo francês de música eletrônica Daft Punk. Kanye fez a já tradicional cara de mau no final da música e parecia indicar que o show estava chegando ao fim. Ao voltar ao palco com um casaco, após a curtíssima parada para o bis, West ainda desfilou alguns sucessos incluindo American Boy e deixou todos felizes. Sem agradecer ou mencionar alguma frase batida como “vou voltar ao Brasil” ou algo do tipo, o rapper cantou “espero que vocês tenham se divertido esta noite” e depois falou um tímido “eu amo vocês”.
Mas a platéia que estava no show já sabia que encontraria um monossilábico West e parecia não se importar nem um pouco com isso. O show foi mesmo do rapper, sempre sozinho no palco, o que só reiterou seu ego inflado (em determinado momento, a nave fala para ele: “você é o maior astro do universo”). Não se sabe, afinal, se havia uma banda atrás do imenso “espaço” ou se todas as batidas eram programadas. Pouco importou também. Kanye é diferente de toda a atual geração do hip-hop americano, viciada na linguagem do gangsta rap. Ele também transita por esse lado, mas vai muito além. E grande parte da platéia do TIM Festival que estava no show – incluindo muitos famosos como o fã confesso Marcelo D2, Gabriel O Pensador, Antonio Grassi e Guilherme Leme – parecia perceber isso.
Esperanza antes, Tim Maia depois
Antes da noite triunfal de Kanye West, a jovem baixista e cantora americana Esperanza Spalding iniciava, por volta das 20h45min, a noite “Sophisticated Ladies” no palco TIM Club e esbanjava simpatia e virtuosismo.
Esperanza arriscou algumas boas palavras em português, disse que ela e sua banda tinham passado o dia inteiro na praia e chamou a platéia para dançar, dizendo que ela mesma dançaria. O palco Club segue a tradição do antigo Free Jazz Festival e é o único com mesas e cadeiras, o que impossibilitava movimentações mais bruscas. Mas a platéia logo acolheu a menina de 24 anos e gritava elogios como “Bravo!” e “Linda!”.
Fã declarada de Milton Nascimento, Esperanza emendou Ponta de Areia e Paula e Bebeto do mentor do Clube da Esquina. Antes de começar a tocá-las, ela brincou dizendo que iria cantar uma música que todos conheciam bem e disse que, se alguém não gostasse, era para resolver lá fora. E ela completou, espirituosa: “vocês sabem o que quero dizer”, disse, enquanto dava murros na própria mão. Mas todos gostaram. A jovem deu sua contribuição para mostrar que o já tradicional palco de jazz definitivamente não pode ficar de fora das futuras programações do TIM Festival.
Já após o término do show de Kanye West, o TIM Village, mais conhecido como a área de social do evento, ficou bem mais cheio, com grandes filas para os restaurantes e bares. E com a espera pelo show que o coletivo paulista Instituto faria em homenagem à fase Racional de Tim Maia. Thalma de Freitas, Simoninha e Carlos Dafé (o amigo e parceiro de Tim Maia era o aniversariante do dia e completou 61 anos) participaram do tributo, que começou à 1h30min e terminou por volta das 3h.
Músicas como a clássica Imunização Racional, You Gotta Be Rational, O caminho do bem, Universo em Desencanto e Guiné Bissau, Moçambique e Angola lembraram a todos como foi sensacional essa estranha fase do síndico. Apesar do clima descontraido e de muitas canções terem colocado a platéia para dançar, o clima do show era de dispersão, talvez já pelo cansaço dos shows anteriores ou mesmo pela intensa social que acontecia ali.