Por Melina Duarte 30/06/2011 às 17:59
"Vamos começar a pensar no problema linguístico como uma questão de política pública e permitir que todos os nossos cidadãos possam defender os seus direitos perante o mundo. Hurry up people!"
No primeiro semestre de 2009, eu assisti um curso de filosofia política ministrado pelo professor Philippe Van Parijs na Universidade Católica de Louvain. Filósofo e economista político, o belga, ganhador do prêmio Francqui, conhece bem nossas problemáticas de país emergente desde que trabalhou na Universidade Federal do Rio de Janeiro e participou do Forum Social Mundial em Porto Alegre. Na ocasião deste curso, Van Parijs escrevia um livro sobre a justiça linguística que será publicado em inglês em setembro deste ano pela editora Oxford. É sobre o esboço deste livro que tratarei brevemente aqui.
No livro em questão, Van Parijs defende a polêmica tese de que somente através de uma unificação linguística é que poderemos, de fato, alcançar a justiça. Dessa forma, toda aceleração desse processo significaria uma aceleração da democratização mundial rumo a uma justiça efetiva para todos. Mas para qual língua converteria essa unificação? Para o esperanto? Espanhol? Mandarin? Não, para o inglês. Van Parijs garante que essa conversão é fruto de uma seleção natural ocasionada pela simplicidade da língua que cresceu e tende a continuar crescendo conforme o número de pessoas que optem por aprendê-la. (Esse é o ponto mais discutível do argumento de Van Parijs.)
Ao refletir sobre a tese, eu quis imediatamente saber como um processo de aceleração da unidade linguística poderia garantir a justiça, se ?acelerar?, nesses termos, parece já fazer parte de um processo de imposição de algo à alguém. Em que sentido pode-se então conceber uma aceleração da unificação linguística em prol do inglês como uma estratégia de democratização e não de submissão a um grupo dominante? Ele defende que, antes de mais nada, a justiça deve ser pensada a nível global, ocupando-se de discussões e defendendo posições que dizem respeito as questões mais gerais. Nesse sentido, uma unidade linguística se mostraria como absolutamente essencial para que a defesa de ideias possa se proceder de uma maneira democrática que venha corroborar com o estabelecimento de uma justiça mais efetiva. A ideia de ter uma língua franca surge então com o intuito de proporcionar uma democracia deliberativa, responsável por mediar as diferenças ao propor uma distribuição igualitária da capacidade de comunicação. Todos devem poder se comunicar dentro e fora de sua comunidade a fim de buscar reconhecimento de suas ideias no debate global. Caso contrário, o sistema hegemônico e injusto não será revertido.
Os argumentos de Van Parijs causam tanto ?barulho?, porque nós insistimos em compreender a unificação linguística como algo contraditório a sua diversidade. A unificação linguística não pretende substituir a pluralidade das línguas, nem uniformizar a diversidade cultural. Muito pelo contrário, a língua franca visa apenas viabilizar o genuíno debate, visto que ele só acontece quando as diversidades se confrontam. Assim, somente se ambas forem incentivadas concomitantemente é que nós teríamos como resultado o efeito benéfico da comunicação universal e não ora um debate entre as elites, ora um grande monólogo mundial.
Como país emergente o Brasil não pode ficar fora do debate mundial, nem permitir que ele continue sendo um privilégio das elites. Vamos começar a pensar no problema linguístico como uma questão de política pública e permitir que todos os nossos cidadãos possam defender os seus direitos perante o mundo. Hurry up people!
Para ler: Van Parijs, O que é uma sociedade justa?, Editora Ática, SP, 1997.
__, Ética económica e social, Edições Afrontamentos, Porto, 2004.
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