Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Junípero, santo ou criminoso?

Por José Inácio Werneck - Em sua visita aos Estados Unidos, em setembro, o papa Francisco vai canonizar Junípero Serra, um padre franciscano que evangelizou os índios da Califórnia, ao tempo em que ela pertencia primeiro aos espanhois e depois aos mexicanos. Há porém quem diga que, em vez de estar num altar, Junípero deveria ter ido para a cadeia.

Domingo, 01 de Fevereiro de 2015 às 13:00, por: CdB
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A história pouco conhecida do jesuíta colonizador católico que será canonizado em setembro
Em sua visita aos Estados Unidos, em setembro, o papa Francisco vai canonizar Junípero Serra, um padre franciscano que evangelizou os índios da Califórnia, ao tempo em que ela pertencia primeiro aos espanhois e depois aos mexicanos. Há porém quem diga que, em vez de estar num altar, Junípero deveria ter ido para a cadeia. Junípero Serra nasceu em Majorca, Espanha, em 1730, foi ordenado franciscano, tornou-se um respeitado professor de Teologia mas abandonou a vida confortável que levava para uma missão evangelizadora nas rústicas paragens do que então, para a coroa espanhola, eram as terras da Baja California e da Alta California. A Baja California, uma península, até hoje pertence ao México. A Alta California, que compreendia ainda outros estados americanos como Arizona, foi perdida para os Estados Unidos em 1848. Mas bem antes disto, a partir de 1769, Junípero Serra percorreu-a de alto a baixo e fundou diversas missões (como os jesuítas fizeram no Brasil, Paraguai e Argentina), convertendo o “gentio”. O problema, para muitos índios hoje vivendo na região, é que seus métodos eram rigorosos e as conversões eram praticamente forçadas. A população nativa da área era considerada  atrasada demais e precisava ser “salva”, mesmo malgrado seu. Uma vez batizados, os índios praticamente tornavam-se prisioneiros. Eram obrigados a viver nas missões e os que as abandonavam eram caçados, aprisionados outra vez e  recambiados. Os índios eram obrigados a aprender espanhol, não podiam mais falar seus idiomas nativos, tinham que se vestir à moda europeia, adotar a comida e os costumes europeus, aí includído o casamento no rito católico. Como eles não tinham imunidade natural contra doenças trazidas pelos colonizadores, morriam com facilidade de moléstias como o sarampo. Em um século, a partir do início dos esforços evangelizadores do padre Junípero Serra, a população indígena da Califórnia foi reduzida de 310 mil para 51 mil. Em 1986, a Diocese de Monterey, na atual Califórnia, investigou as acusações indígenas contra Junípero Serra, mas o absolveu. Mesmo assim, os historiadores continuam com suas pesquisas. Segundo reportagem no New York Times, Steven Hackel, Professor de História na Universidade da Califórnia, em Riverdale, diz que o padre Serra simplesmente refletia a mentalidade da época, a de que os índios eram “incapazes de se governarem e mesmo de escolher uma esposa”. Segundo o professor Hackel, os índios se consideravam quase escravizados, a ponto de serem castigados com chicotadas, mas os missionários os contavam entre almas convertidas, a caminho do paraíso. Há descendentes de índios hoje dispostos a perdoar Junípero Serra e a concordar com sua canonização. Entre eles, ainda segundo o New York Times, está outro historiador, Andrew Galván, curador em Mission Carmel, em Carmel. - Eu talvez seja o único descendente de índios na Califórnia alegre com a canonização de Junípero Serra - declarou Galván. Sei  que seus métodos seriam considerados cruéis hoje em dia, mas, certa ou erradamente, ele nos levou  ao caminho da salvação. José Inácio Werneckjornalista e escritor, trabalhou no Jornal do Brasil e na BBC, em Londres. Colaborou com jornais brasileiros e estrangeiros. Cobriu Jogos Olímpicos e Copas do Mundo no exterior. Foi locutor, comentarista, colunista e supervisor da ESPN Internacional e ESPN do Brasil. Colabora com a Gazeta Esportiva. Escreveu Com Esperança no Coração sobre emigrantes brasileiros nos EUA e Sabor de Mar. É intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive. Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.
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