O ex-ditador iraquiano Saddam Hussein ouviu nesta segunda-feira, durante a reinício de seu julgamento em Bagdá pelo genocídio de populações curdas, as acusações de uma ex-combatente curda, que narrou as atrocidades vividas após um bombardeio químico.
O julgamento de Saddam e de seis de seus colaboradores foi retomado após uma suspensão de três semanas. Saddam tomou a palavra para sair em defesa da bandeira iraquiana, que as autoridades regionais curdas não reconheciam como símbolo nacional.
- A bandeira que está colocada atrás de você foi herdada por nós, não fui eu que a concebeu - declarou Saddam, que assegurou que a único coisa que fez foi acrescentar a inscrição "Alá al Akbar" (Deus é Maior).
- Falo na qualidade de estudante de história. Herdamos essa bandeira e não a hasteamos durante a campanha militar de Al-Anfal, entre 1987 e 1988 - ressaltou, antes que cortassem seu microfone.
O ex-presidente continuou falando durante outros cinco minutos, sem que a imprensa pudesse escutar o que dizia.
Saddam e seus colaboradores são acusados de ter ordenado e colocado em prática as campanhas de repressão Al-Anfal, que deixaram até 180 mil mortos no Curdistão.
Uma antiga 'peshmerga', como são conhecidos os combatentes curdos, explicou, com o rosto descoberto, as atrocidades cometidas durante o regime de Saddam contra regiões do Curdistão, no norte do Iraque.
A testemunha Katherine Elias Mijail contou que, em 5 de junho de 1987, no momento em que uma unidade de peshmergas se reunia num vale do Curdistão, aviões do tipo Sukhoi bombardearam a região com armas químicas.
A mulher, cristã, afirmou ter visto dezenas e mesmo centenas de pessoas afetadas.
- Vomitavam líquido, se contorciam de dor, tinham o estômago queimando e começavam a perder a visão. Algumas delas a recuperaram depois, outras ficaram cegas - explicou.
Os seis outros acusados também estavam na sala, incluindo Ali Hassan al-Majid, conhecido como Ali Químico por seu papel nos bombardeios químicos de regiões curdas.
Um dos advogados de Saddam, cuja identidade não foi revelada, anunciou nesta segunda-feira sua saída da equipe de defesa ao considerar que o juiz não o deixou tomar a palavra.
O presidente do Alto Tribunal Penal iraquiano, Abdallah al-Ameri, declarou que "segundo a lei iraquiana, os especialistas árabes e estrangeiros só estão autorizados a aconselhar o advogado principal da defesa", ainda que Khalil al-Dulaimi não estivesse presente.
Julgamento de Saddam Hussein recomeça em Bagdá
Segunda, 11 de Setembro de 2006 às 07:20, por: CdB