O colunista filipino Pablo Hernandez guarda uma pistola Ingram e afirma que fez bom uso dela quando homens armados tentaram torná-lo mais uma vítima de uma onda de assassinatos na mídia no país.
- Está piorando - disse Hernandez nesta quinta-feira, um dia depois de ter trocado tiros com dois homens em uma motocicleta que seguia seu carro em Manila.
-Esse governo não é sério para prender os mandantes, porque se concentra apenas nos assassinos contratados - diss ele.
As Filipinas se orgulham de ter a imprensa mais livre da região, mas grupos de mídia vêm criticando o governo por não dar um fim nos ataques - muitos deles relacionados aparentemente a reportagens sobre autoridades corruptas e acordos comerciais.
Ninguém foi condenado pelos assassinatos de quase 70 jornalistas desde que a democracia foi restaurada no país, em 1986, com a queda do ditador Ferdinand Marcos. Cinco jornalistas já foram mortos neste ano.
As Filipinas foram o país com o maior número de assassinatos do mundo na imprensa, de acordo com o Comitê de Proteção de Jornalistas, com sede em Nova York. Foram 18 mortes desde janeiros de 2000. Depois aparecem o Iraque, a Colômbia, a Rússia e Bangladesh.
Hernandez, colunista do tablóide "Bulgar" (expor), disse que tem uma arma licenciada desde 1999, época em que começou a receber ameaças de morte por causa de suas histórias sobre contrabandistas e policiais corruptos.
Alguns repórteres andam armados há muito tempo em áreas onde insurgências de rebeldes muçulmanos e comunistas são fortes e há muitos exércitos particulares controlados por autoridades locais.
- Quase todos os jornalistas nas províncias têm armas - disse um fotógrafo, que pediu para não ser identificado.
O Sindicato Nacional de Jornalistas das Filipinas rejeita a idéia de repórteres armados, mas muitos profissionais estão se armando em Manila e em outras cidades, depois que a polícia endossou a autoproteção da mídia neste ano.
- Eles estavam armados, então atirei primeiro - disse Hernandez, acrescentando que foi a segunda tentativa de matá-lo. Ele sobreviveu a um ataque com faca em fevereiro em um clube de bilhar.
As mortes de repórteres refletem uma cultura mais ampla de impunidade para os assassinos de prefeitos, juízes e padres, bem como uma quebra geral da lei e da ordem, escreveu nesta quinta-feira o colunista Federico Pascual no jornal Philippine Star.
- Não é mais fácil matar jornalistas - é tão fácil quanto matar quem quer que entre no caminho da gente do poder - disse.
A presidente Gloria Macapagal Arroyo estabeleceu um fundo de "liberdade de imprensa" de 92 mil dólares na segunda-feira a fim de ajudar a solucionar e acabar com os ataques.
- Esses atos de violência contra os homens e mulheres que formam a fundação de uma imprensa livre e de uma sociedade aberta são atos contra o próprio país - declarou.
Na semana passada foram registradas outras duas mortes.Philip Agustin, editor de um jornal comunitário, foi morto a tiros em sua casa e uma bomba escondida em um presente enviado para um radialista matou por engano um garoto de 11 anos.
Alguns jornalistas já foram acusados de inventar ataques para ganhar publicidade, e outros parecem ter sido mortos devido a disputas pessoais sem relação com o trabalho.