Rio de Janeiro, 23 de Setembro de 2026

Jornalistas da Rádio Victoria voltam a receber ameaças de morte

Segunda, 04 de Julho de 2011 às 13:13, por: CdB

"Calem-se ou aparecerão mortos” e "Esta é uma advertência a mais a vocês, por mais que se cuidem não escaparão” foram algumas das ameaças recebidas por jornalistas da Rádio Victoria, localizada na cidade de Victoria, departamento de Cabañas, El Salvador. Bilhetes chegaram à rádio e às casas dos trabalhadores em 2006 e em 2009, assinados por "Grupo de Extermínio”, porém o envio ressurgiu em maio. Os jornalistas também têm recebido telefonemas e e-mails anônimos.

A Rádio Victoria pauta, em sua programação, temas sociais como direitos humanos, gênero, juventude e meio ambiente, relatando principalmente a luta contra a mineração. Sobre este tema, sempre explicam quais prejuízos ambientais os projetos mineiros na região podem causar devido ao uso de cianureto na extração de metais.

Para os jornalistas, esse é o motivo das ameaças, que coincidentemente tiveram início em 2006, durante as mobilizações contra a exploração mineira no município de San Isidro, também em Cabañas, realizada pela transnacional mineira canadense Pacific Rim Mining Corp (PacRim).

Na época, dois líderes sociais foram assassinados. Já em 2009, no período das eleições, novamente as ameaças se intensificaram. Apesar de não acusarem ninguém especificamente, os jornalistas desconfiam que as ameaças partam dos prefeitos dos municípios vizinhos e, principalmente, do prefeito de Victoria, Juan Antonio Ramos.

As intimidações foram dirigidas aos radialistas Pablo Ayala, Óscar Beltrán, Manuel Navarrete, Maricela Ramos e às famílias dos trabalhadores. Entre junho e dezembro de 2009, houve três assassinatos ligados à atividade mineira e, por isso, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) decidiu, em 2010, que a Polícia deveria dar proteção às instalações da rádio e aos jornalistas.

Contudo, nem assim eles se sentem seguros, conforme relata o coordenador da emissora, o jornalista Óscar Beltrán. "Não confiamos em quem nos cuida. A mineração está ligada aos poderes locais. Não confio na polícia daqui”, comentou, afirmando que os policiais fazem relatórios de todas as atividades da rádio, inclusive reuniões.

A jornalista Maricela teve de deixar o país, pois as ameaças eram dirigidas a ela e à filha de dois anos. "Nas mensagens nos insultam, nos intimidam, restringem nossa liberdade de expressão dizendo-nos que mudemos nosso modo de produzir rádio, e se não, nos dão prazos para sair do lugar ou do contrário nos vão assassinar”, conta.

Também o jornalista Pablo Ayala, de apenas 20 anos, teve de mudar sua vida e agora é acompanhado por um policial em todos os momentos. "Se estou em casa, ali está, se estou no parque, também”, relatou.

Em 2002, a PacRim começou a pesquisar jazidas de ouro e prata na localidade de El Dorado, em San Isidro. Entretanto, em 2008 o governo frustrou a empresa negando permissão para a exploração, como fez com outros 11 projetos. A transnacional entrou com um pedido de indenização contra o Estado de El Salvador, no valor de 100 milhões de dólares, junto ao Banco Mundial. O processo ainda está tramitando e, por enquanto, a empresa está com as operações suspensas no país.

Solidariedade

Radialistas da Associação Latino-americana de Educação Radiofônica (Aler), reunidos na capital San Salvador, realizaram visita à Rádio Victoria. No micro-ônibus em que viajavam, os comunicadores improvisaram uma estrutura e transmitiram, para 107 rádios e coordenadoras afiliadas à Aler no continente, o programa "Contato Sul Vespertino”, em solidariedade aos jornalistas ameaçados.

Repórteres sem Fronteiras, Associação Latino-Americana de Educação Radiofônica (Aler), Associação Mundial de Rádios Comunitárias (Amarc) e Organização Católica Latino-Americana de Comunicação (Oclacc) participaram da transmissão, ressaltando a importância da Rádio Victoria para os movimentos sociais da região. Os radialistas pediram agilidade nas investigações a fim de acabar com as ameaças anônimas e a punição dos culpados.

Com informações da Oclacc.

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