Rio de Janeiro, 29 de Agosto de 2026

Jornais superexploram crianças vítimas do massacre de Realengo

Quinta, 12 de Maio de 2011 às 10:10, por: CdB

Utilização excessiva de entrevistas com vítimas da tragédia fere a proteção da imagem e integradade das crianças

 

12/05/2011

 

Michelle Amaral,

da Redação

 

Há pouco mais de um mês, Wellington Menezes de Oliveira, de 24 anos, invadiu a escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, e atirou contra crianças e adolescentes. No período que sucedeu o massacre de Realengo, bairro fluminense onde está localizada a escola, a mídia manteve o assunto em pauta e, de todas as formas possíveis, o explorou.

Por dias, o noticiário brasileiro se ocupou de expor análises de diferentes tipos de especialistas sobre a personalidade do atirador, relatos daqueles que o conheciam, divulgação da carta deixada por ele e de documentos e vídeos recuperados de seu computador, como também imagens das câmeras de segurança da escola. Todos queriam falar sobre a tragédia. No entanto, as principais fontes inquiridas pela imprensa foram as crianças vítimas do massacre.

Além de doze alunos mortos, 30 ficaram feridos, destes 12 tiveram que ser internados. No início da cobertura jornalística, repórteres entrevistaram crianças que presenciaram o massacre. Com a alta médica dos feridos, estes passaram a ser procurados para contarem como foi a tragédia.

O caso mais recente de relato de uma vítima do ataque à Escola Tasso da Silveira ocorreu no último domingo (1). Uma reportagem do Fantástico, da Rede Globo, contou a história de um adolescente de 14 anos que levou três tiros no episódio. O menino relatou o acontecimento em entrevista. A repórter o questionou sobre os mínimos detalhes do momento de terror por que passou. Além disso, a reportagem mostrou imagens da câmera de segurança da escola em que o aluno aparece se arrastando no chão após ter sido baleado.

O Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Rio de Janeiro (Cedeca-RJ), em nota, afirmou que nos primeiros dias que seguiram a tragédia, a cobertura da mídia seguiu o padrão e o dever de informar e mobilizar todos os meios e recursos do poder público, da sociedade em geral e da comunidade local. Entretanto, com o passar dos dias, a Cedeca-RJ constatou a superexposição das crianças vítimas através de entrevistas com os sobreviventes em suas casas. A entidade manifestou repúdio a tal prática e afirmou na nota que “diversos programas de TV e rádio, transmitidos praticamente para todo o país e de grande audiência, repercutindo no exterior, exploram a imagem de tais crianças e adolescentes pela exposição pública do sofrimento físico e psíquico a que foram submetidos”.

Esta avaliação não foi feita somente pelo Cedeca-RJ. Diversos analistas da imprensa, após alguns dias da tragédia, passaram a divulgar suas avaliações contrárias a forma como a mídia ultrapassou os limites da cobertura responsável ao expor o sofrimento e trauma destas crianças.

Guilherme Canela, coordenador de Comunicação e Informação da Unesco, afirma que não é ilícito utilizar depoimentos de crianças em reportagens, desde que haja o cuidado com a preservação da imagem e integridade do menor. “O Estatuto da Criança e do Adolescente tem dispositivos específicos, inclusive sobre jornalismo, em relação a como a imagem da criança deve ser protegida. E, sobretudo, crianças que estão em situação de violência”, relata.

De acordo com o coordenador da Unesco, a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, em princípio, estimula que a criança tenha direito à liberdade de expressão, mas também tece recomendações sobre os objetivos de sua participação nos meios de comunicação. “O artigo 17 da Convenção ressalta que a relação da criança com os órgãos de comunicação social é uma relação peculiar que deve ter sempre como foco a promoção do bem-estar social, espiritual, moral e da saúde física e mental da criança”, descreve.

 

Consequências

Pedro Pereira, coordenador executivo do Cedeca-RJ, explica que no caso de Realengo esta recomendação não foi seguida. Segundo ele, as crianças foram superexpostas e isso traz consequências para a recuperação do trauma sofrido. “A cada vez que a criança conta aquela história, ela revive a situação, portanto, sofre com aquilo e isso traz consequências muito drásticas para sua vida e para sua saúde mental”, afirma.

De acordo com Canela, “é preciso ter em conta, do ponto de vista da responsabilidade daqueles que estão fazendo uso de entrevistas com crianças, se está claro para as crianças e para os pais as potenciais consequências positivas e negativas dessa exposição”.

Nesse sentido, Pedro Pereira avalia que não houve este cuidado na cobertura que se fez do massacre de Realengo. “Eu acho que as próprias famílias teriam ali um papel fundamental de preservar as crianças. Se as famílias não o fizeram, os órgãos de proteção deveriam de alguma maneira se posicionar”, alega.

Justamente por entender que houve falhas na abordagem da imprensa e falta de conscientização das famílias em permitirem que a exposição das crianças fosse feita, o Cedeca-RJ se manifestou publicamente contrário à cobertura da mídia em geral. “Informar a população sobre o que aconteceu é um direito da imprensa, mas a exploração disso é o que a gente questionou”, diz Pereira.

 

Papel do jornalismo

Guilherme Canela explica que não houve ainda um estudo por parte da Unesco sobre a cobertura da mídia no caso do massacre de Realengo. No entanto, o coordenador ressalta que é necessário que haja uma discussão mais abrangente sobre o papel do jornalismo ao cobrir situações de violência, de modo a criar a responsabilidade em se ter uma espetacularização menor e se focar mais nas questões das políticas públicas que podem ser suscitadas a partir de casos específicos de elevada violência.

“Será que para a construção e fortalecimento da cidadania e um certo papel de prevenção de futuras tragédias, a cobertura mais interessante é uma cobertura que tenta se aprofundar nas falhas das políticas públicas que acabam permitindo este tipo de acontecimento ou é se concentrar nos elementos sensacionais, traumáticos e altamente violentos?”, indaga Canela.

 

 

 

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