Em seu primeiro show no Brasil após a conquista do Oscar de melhor canção, o cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler reclamou da platéia barulhenta do FM Hall, no Rio de Janeiro, na noite de terça-feira.
Drexler, premiado por "Al Otro Lado del Río", do filme de Walter Salles "Diários de Motocicleta", foi convidado para se apresentar na festa fechada, que marcou a inauguração de um camarote de uma operadora de celular na casa de espetáculos. O contrato havia sido fechado antes de ele receber o Oscar.
Visivelmente incomodado, Drexler, 41 anos, fez várias intervenções na sequência das músicas para pedir, em vão, o silêncio da platéia.
"Vou cantar para alguns que estão me ouvindo", disse, com seu português quase perfeito. "Preciso de silêncio para tocar. Vocês, que têm aqui um músico como João Gilberto, sabem respeitar um artista", vociferou em outro momento.
Vez ou outra, ele se afastava do microfone para cantar mais baixo. "Vocês estão me ouvindo?", perguntou diversas vezes, demonstrando preocupação com a acústica no local e com o ruído das conversas do camarote vip que reverberava diretamente no palco.
A platéia em pé -- formada por anônimos e por um ou outro famoso como o cantor Frejat e o músico George Israel -- também se manifestou, pedindo silêncio e respeito. No espaço da operadora de celular, estavam atores da Globo e convidados do empresário Alexandre Aciolly, um dos sócios da casa de espetáculos.
De violão à mão, o uruguaio, que se apresentou no país em 2004, fez um show de pouco mais de uma hora para cerca de 800 pessoas, acompanhado de um trio -- bateria, baixo e guitarra. Entre os convidados especiais, estavam o percussionista Marcos Suzano, o cantor Paulinho Moska e o produtor musical Celso Fonseca, parte do seleto grupo de amigos que mantém no Brasil.
Com Marcos Suzano no pandeiro, cantou as canções "Transporte" e "Don de Fluir". Com Moska, fez "La Edad Del Cielo", composição sua que ganhou versão do brasileiro em gravação de 2001. Já o músico e produtor Celso Fonseca apareceu no bis para cantar ao lado de Drexler "Slow Motion Bossa Nova".
A apresentação foi baseada no álbum mais recente do uruguaio, que vive na Espanha desde 1994, com músicas como "Eco", que dá nome ao disco, "Todo se Transforma", "Guitarra y Vos", "Milonga Del Moro Judio", "Polvo de Estrellas" e "Se Va, se Va, se Fue". Do álbum anterior, "Sea" (2001), indicado ao Grammy, ele executou "Crece" e "Pianista Del Gueto de Varsóvia".
No meio do show, Drexler ficou sozinho no palco, de posse do violão e de alguns samplers pré-gravados que ele próprio manejava, para cantar a música mais esperada da noite, "Al Otro Lado del Río".
Ele comentou a polêmica do Oscar, se dizendo vítima do produtor Gil Cates, responsável pela cerimônia, que não o teria convidado para cantar no evento -- quem apresentou a música do uruguaio durante o Oscar foram o ator espanhol Antonio Banderas e o guitarrista mexicano-americano Carlos Santana.
"Quero agradecer ao Walter Salles, que me convidou para escrever esta canção especialmente para o filme", disse, antes de começar a tocar. Na introdução da música, esperou mais silêncio da platéia, ligou um sampler e dedilhou o violão, adiando a hora de começar a cantar.
Relançado em fevereiro pela Warner, "Eco" já está nas lojas brasileiras com a faixa bônus da música de "Diários de Motocicleta", que foi incluída depois do sucesso que fez nas telas durante a exibição do filme no Brasil.