Rio de Janeiro, 02 de Outubro de 2026

Joel Rufino dos Santos: a voz do morro na literatura

Quinta, 21 de Julho de 2011 às 10:01, por: CdB

O historiador, professor e escritor lança romance que aborda 50 anos da história do Brasil do ponto de vista de pessoas comuns, próximo ao estilo do grande escritor Lima Barreto.

Por Marcos Aurélio RuyO romance Bichos da Terra Tão Pequenos, de Joel Rufino dos Santos (Editora Rocco, 2010, 206 páginas) narra importantes passagens históricas do Brasil dos anos 1950 aos 2000. Com o título extraído de poesia de Luís de Camões, o livro não pretende ser histórico, é pura ficção.

O autor apresenta o morro do Urubu, com características semelhantes aos morros cariocas e a trajetória de marginalização e perseguição política aos negros, aos pobres, aos esquerdistas, aos comunistas e a todos que de alguma forma postavam-se contra o regime, conscientemente ou não.

O protagonista da história Vinquinho é um daqueles personagens feitos para marcar a literatura para a eternidade. Traz em seu bojo a vida do subúrbio carioca em todas as fazes da história do Rio de Janeiro, por muito tempo a capital federal do país. Estão presentes no livro: a favela, a cidade, a repressão, a vontade do homem do povo de não encerrar-se em seu sofrimento na luta cotidiana pela sobrevivência.

Ativista do movimento negro e estudioso das questões do negro brasileiro, Joel Rufino dos Santos foi discípulo do marxista Nelson Werneck Sodré, com quem trabalhou no Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Foi preso e exilado pela ditadura fascista de 1964-1985, por seu envolvimento com a Aliança Libertadora Nacional, organização que partiu para a luta armada contra o regime militar.

Sempre na luta contra a discriminação racial e por um país menos desigual, o único professor negro de pós-graduação em Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro publicou mais de 50 livros, sendo este o mais recente. Concorde-se ou não com suas teses, Rufino consiste em leitura obrigatória para todos que desejam entender um pouco mais a formação do povo brasileiro, seja por obras ficcionais, seja pelas obras científicas.

Alguns livros do autor
O Dia em que o Povo Ganhou (Civilização Brasileira, 1979)
A Botija de Ouro (Editora Ática, 1984)
Afinal, Quem Fez a República? (FTD, 1989)
O que é Racismo (Editora Brasiliense, 1998)
A Vida de Zumbi dos Palmares (FAE/MEC, 1995)
Quando Voltei Tive uma Surpresa (Editora Rocco, 2000)
O Presente de Ossanha (Global, 2006)
Na Rota dos Tubarões; o Tráfico Negreiro e Outras Viagens (Editora Pallas, 2008)
Quem Ama Literatura Não Estuda Literatura: Ensaios Indisciplinados (Editora Rocco, 2008)

Texto do livro:

"Os quarenta jurados, caso único no Grupo de Acesso, deram nota dez à Alegria do Urubu. Com duas horas da apuração, a quadra na subida do morro põe gente pelo ladrão. Merienne, Rui Roberto e Fuad chegam nos ombros da massa. Puseram os barris de chope numa varandinha, era só sentar, abrir a boca, a sobra escorria pelos corpos, fazia riachos no chão. Martin, extasiado, procura uma cara conhecida na festa bárbara. Menino em Sulzback, sábado de manhã, vinha com colegas espiar pela janela a taberna da cidade, ainda com cheiro de Branntwein, cerveja derramada, salame, tutano de porco, sexo e sovaco. Imaginava um instante o que se passara ali, à noite, corpos apertados nos bancos de carvalho, lieds, canecas de líquido vermelho, um animal inteiro, talvez porco, talvez centauro, atirado periodicamente pelas criadas de tranças duplas e avental amarelo no centro da mesa comprida. O menino recuava para a luz da rua, com medo, como agora. Passa um trenzinho humano, carregam com ele, lhe derramam chope por dentro da camisa, as cuecas e as meias se encharcam. “Nada se parece mais com um alemão que um negro”, lhe sussurrara no sambódromo o chefe do Instituto, vendo passar uma ala de mulheres. “Nada se pode confiar nessa gente, quando não fazem na entrada fazem na saída”, o mesmo que se dizia na Europa sobre os alamanos de achas, no tempo de César, e sobre a pequeno-burguesia de Munique, lá por 1925, embriagada de esqui, cerveja, Karneval o Octoberfest, enquanto nos fundos corriam a patadas as disputas partidárias que deram no que deram, e mesmo dos roqueiros de hoje que derrubaram o Muro para em seguida ressuscitarem os símbolos que transportavam à Feldherrnhalle, Salão dos Generais, em cuja porta, levando-o para a escola, sua mãe diariamente parava, descia da bicicleta para juntos fazerem a saudação nazi obrigatória. Nessa época executaram Walter Klingenbeck, com dezenove anos, e sua mãe, grávida, o Marido no exército, lhe propôs um segredo – se fosse menino se chamaria em casa, secretamente, até que a guerra acabasse, Walter Klingenbeck. A ex-esposa, de um casamento breve e ruim, dizia maldosamente a Martin que um Jean Cristophe vive em cada alemão, trágico, abstrato, contido, telúrico como os negros do Brasil,mas é bom ressalvar, não os da África. “Um alemão sozinho é um alemão, dois é a Germânia”, completava ela, ex-aluna de Leopold Senghor em Paris, “tal e qual os negros que ao se reunirem instauram a negritude.” Duvidava disso, mas é verdade que ela o dizia com convicção, pouco se importando, como scholar, que o interlocutor concordasse."

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