Há 30 anos, o sociólogo, professor e escritor suíço Jean Ziegler escreveu seu primeiro best seller - A Suíça Acima de Qualquer Suspeita - tornando-se o primeiro combatente contra o segredo bancário suíço. Essa luta levou-o à política e se tornou deputado federal, embora fosse detestado pela maioria dos suíços e considerado traidor por lutar contra os bancos. Mas em Genebra, se tornou um símbolo e logo seu prestígio de combatente pelo Terceiro Mundo se alastrou pela África e América Latina.
Na juventude, tivera o desejo de se juntar aos revolucionários em Cuba, mas foi o próprio Che Guevara quem, num encontro em Genebra, lhe mostrou que deveria permanecer na Suíça - "seu lugar é aqui, onde está a cabeça da hidra da finança capitalista mundial". Hoje, relator especial da ONU, toda Suíça reconhece ser Ziegler seu cidadão mais conhecido e respeitado em todo mundo.
No Rio de Janeiro, onde veio entrar em contato com ONGs para avaliar os resultados do Fome Zero, Ziegler afirma ser possível se acabar com a fome no mundo, se confessa surpreso com a campanha da imprensa contra o PT e Lula, ressalta o papel do Brasil como líder do Terceiro Mundo sem o qual não se poderá fazer funcionar o Eixo do Bem na América Latina. Depois de encontrar intelectuais de esquerda, Ziegler acha ser importante a reeleição de Lula, mas que sua credibilidade depende de um retorno às reformas estruturais internas, de uma auditoria da dívida e de uma mudança da política econômica. Esteve na Geração Editorial, em São Paulo, para acertar a tradução do seu último livro - O Império da Vergonha. Na mesma editora, é autor do prefácio do livro O Dinheiro Sujo da Corrupção.
- Seu último livro, O Império da Vergonha, destaca os fatores determinantes de uma nova miséria mundial...
- Esse livro, que se dirige principalmente à opinião pública ocidental, mostra que, todos os dias, cem mil pessoas morrem no mundo de fome ou de suas consequências imediatas. A cada quatro segundos, morre de fome uma criança de menos de dez anos. A cada quatro minutos, uma pessoa fica cega por falta de vitamina A e 856 milhões de pessoas, uma entre seis pessoas do planeta, vivem uma subnutrição crônica. Porém, essas mesmas estatísticas da ONU informam que a agricultura mundial, tal como é hoje, poderia alimentar normalmente com 2700 calorias por dia, doze bilhões de seres humanos, ou seja o dobro da atual população mundial. Por isso, pode-se dizer que cada criança morta de fome é uma criança assassinada. As consequências do capitalismo globalizado não são apenas criminosas como absurdas - ele mata, porém mata sem necessidade. Foi a diplomacia brasileira que se tornou a cabeça dos países do Hemisfério Sul, reeditando em um certo sentido Bandung, quando em 1956, na Indonésia, os países do Hemisfério Sul criaram o movimento dos países não alinhados. Até agora os países do Sul não tinham líder, porém agora com Celso Amorim e Lula é o Brasil o interlocutor mais credível. A Índia ainda tem muitos problemas e miséria, a China é uma ditadura e o Brasil é uma democracia viva.
- Existe uma maneira de se acabar definitivamente com a fome no planeta, já que os alimentos são suficientes?
- Bastará se colocar em vigor os princípios da Carta das Nações Unidas e que os direitos econômicos, sociais e culturais sejam reconhecidos, pois atualmente na Declaração dos Direitos Humanos são principalmente reconhecidos os direitos civis e políticos. São importantes os direitos de reunião, da imprensa, etc., vindos da Revolução Francesa e da Declaração de Filadélfia da independência americana, porém, esses direitos não são mais suficientes. Quando as pessoas estão morrendo de fome não serve para nada lhes dar um título eleitoral porque ninguém pode comer isso. Os novos direitos sociais, econômicos e culturais, dos quais o Brasil é defensor, o reconhecimento do direito à alimentação, à saúde e