Depois de tantas ameaças divulgadas por uma imprensa criminosa, não seria sinal de fraqueza um sentimento de desolação nos assumindo. Mas eis que de repente um raio ilumina o Brasil e podemos ter certeza de que a Democracia é vitoriosa.
Ficou claro que o povo nas ruas, pelo Brasil inteiro, jovens, estudantes, professores, homens e mulheres, se reuniram em nome do Estado de Direito Democrático
Por Maria Fernanda Arruda - do Rio de Janeiro:
Vamos sepultar as cabeças corruptas?
Depois de tantas ameaças divulgadas por uma imprensa criminosa, não seria sinal de fraqueza um sentimento de desolação nos assumindo. Mas eis que de repente um raio ilumina o Brasil e podemos ter certeza de que a Democracia é vitoriosa.
1 - Convenção do PMDB, comandada por Jucá e Cunha, determinou o rompimento do partido com o governo, antecipando a vitória dos golpistas, ao menos na Câmara dos Deputados. Camuflaram-se as ausências não comentadas: Renan Calheiros, o coronel Jose Sarney,nem Roberto Requião estiveram nos três minutos de carnaval. Katia Abreu foi a primeira a comunicar que não abandona o governo. Quais os ministros que deixarão as suas pastas? Ronaldo Picciani deixará a liderança do Partido na Câmara, recém eleito, contra a vontade de Eduardo Cunha? Requião, Voz de Trovão, resumiu a opereta: "Como uma convenção decide se, depois de cinco anos de aliança, o partido entra ou sai em três minutos? Foi uma farsa", condenou ex-governador do Paraná, que tem mais de 30 anos de PMDB.
Maria Fernanda Arruda Podemos não mais sonhar apenas, mas ter muita convicção de que a vontade do povo brasileiro será respeitada
Renan Calheiros disse nas tradicionais meias-palavras de sua ira: "É evidente que isso (a decisão do rompimento) precipitou reações em todas as órbitas: no PMDB, no governo, nos partidos da sustentação, nos partidos da oposição, o que significa em outras palavras, em bom português, não foi um bom movimento, um movimento inteligente". Sarney não fará pronunciamentos públicos; emitirá ordens.
Aquilo que parecia catastrófico para o Governo Dilma Rousseff transforma-se rapidamente em catástrofe para Eduardo Cunha e Jucá. Cunha, fica evidente, será convidado a retirar-se, para não se preso. Como o PMDB real, aquele que jamais poderá viver longe do Governo, arquitetará uma reaproximação? Claro, o preâmbulo é fácil: "Presidenta, desculpe-nos, foi engano, bobageira de idiotas." Os deputados do "baixo-clero", curral de Cunha, deverão baixar cabeças e dizer amém à voz dos verdadeiros chefes.
Tudo isso faz sentido. O PMDB é o "centrão", que foi desenhado no passado por gentalha do gabarito de Orestes Quércia e Roberto Cardoso, aquele que afirmava: "é dando que se recebe". Uma corporação de espertalhões, que só sobrevive se puder contar com benesses do Estado. O seu antecessor, o MDB, foi oposição até a derrota e esvaziamento do projeto das "diretas já". Depois de abandonado pelo Congresso (a Emenda Dante de Oliveira foi derrotada por ausência dos congressistas à reunião). Ajustou-se na candidatura de Tancredo Neves, a ser eleito sem votos do povo e coroou o velho arenista Jose Sarney, a quem daria cinco anos de governo, sob a proteção do general Leônidas Pires Gonçalves. O que terá sido o PMDB de Ulisses Guimarães: o envelhecido líder democrata conduziu a uma Constituição de olhos voltados para o passado, precavendo-se contra uma nova ditadura eventual, incapaz por completo de projetar o futuro que já batia às portas.
A Constituição de 1988 consagra o mandonismo dos senhores dos rincões, que o PMDB exerce, com os seus prefeitos, governadores, maioria de congressistas, e mais os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. Sonha com a presidência da República; mas esse é o sonho que seria o pesadelo para os brasileiros? Encantou o PT com a proposta mentirosa de garantia de "governabilidade". E agora, José? Haverá ingenuidade para aceitar-se o reatamento do namoro? Não é provável. O primarismo de Eduardo Cunha e covardia do Vice-Presidente abortaram o sonho. E o que se deseja é que Dilma Rousseff, acordando do pesadelo, possa governar, formando uma equipe competente de ministros.
2 - Acordamos na quarta-feira sob a ameaça de mais uma medida protelatória de Eduardo Cunha, o rato que foge, pretendendo desmoralizar a Comissão de Ética da Câmara; e a sombra assustadora de uma Comissão Especial para analise do pedido de impedimento da Presidenta Dilma, montada para dar encaminhamento favorável ao pedido assinado por Miguel Reale e associados. Ora pois. As manobras de Cunha resultaram em nada de coisa alguma e vai ficando suficientemente claro que ele vive os seus últimos dias. Quanto ao pedido de Reale, após a reunião de quarta-feira, ficou evidente a sua incompetência que chega ao analfabetismo. Como defender o golpe depois disso, e considerando-se que o PMDB de Renan Calheiros e Jose Sarney estará empenhado em retorno à antiga casa? Na quinta-feira, os técnicos do governo foram ouvidos no mesmo cenário e ficou gritante a diferença entre os dois discursos.
Devem ser analisados como um todo: a incompetência memorável dos que pedem o impedimento, o PMDB fazendo uma desavergonhada marcha-a-ré, uma posição mais clara e razoável do STF. E o povo nas ruas. Sem falsos otimismos, pode-se tomar como muito provável o aborto de tentativa de golpe.
3 - Os reclamos, justos mas pouco diplomáticos, de Lula, com relação ao Supremo Tribunal Federal, somados ao narcisismo incontido de vários dos ministros, faziam temer pelo resultado do que aconteceria na quinta-feira. Votos retóricos, demonstrações de sabedoria erudita, e uma decisão favorável à reclamação posta por Dilma Rousseff, com relação aos desmandos de Sérgio Moro. Em alguns momentos, ficou claro que não só os ministros agiam corporativamente, exigindo respeito à sua competência, mas também que os destemperos de um ministro de primeira instância não são bem-vistos. Não há como fazer previsões. Mas passa a ser provável que o STF defina medidas que disciplinem a ação do Ministério Público e da Justiça Federal, com a eliminação de expressões de vedetismo partidário. Em palavras simples: é muito possível que o juiz Moro tenha chegado ao ponto final: Passará o bonde vazio, no letreiro informando-se: recolhe.
Com certeza, precisamos de calma e paciência. O STF é uma instituição anacrônica, arcaica, na linguagem e na forma de pensar. Mas, no todo, não nos cabe pretender privilégios. A solução, se não será dada pelo Judiciário, passa sem dúvida por ele.
4 - As manifestações marcadas para 31 de março se fizeram uma grande festa de civismo. Ficou claro que o povo nas ruas, pelo Brasilinteiro, jovens, estudantes, professores, homens e mulheres, se reuniram em nome do Estado de Direito Democrático. Não se tratava de defender sem restrições um governo que merece criticas severas. Mas o que chamou a todos foi o amor ao que é o Direito. Um vozerio capaz de fazer ridículas as mentiras, as distorções primárias. Calar vozes como as de Eduardo Cunha, de Paulinho da Força e outras figuras torpes. E se isso tudo não bastasse, as manifestações pela Verdade foram feitas mundo afora, em Portugal, em Paris, na Itália, na Alemanha. Quem terá coragem para enfrentar o povo que foi às ruas? Os covardes que se fizeram ratos? Uma consagração final: a fala, sintética e completa, de Chico
Buarque de Holanda.
Podemos não mais sonhar apenas, mas ter muita convicção de que a vontade do povo brasileiro será respeitada. O que acontecerá em seguida, comemoremos antes de sugerir caminhos e soluções. Teremos pela frente uma grande crise social e econômica, mas que será enfrentada com a segurança que nos dará a vitória que começou hoje.
Maria Fernanda Arrudaé escritora, midiativista e colunista doCorreio do Brasil, sempre às sextas-feiras
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