Rio de Janeiro, 08 de Novembro de 2026

Ivan Lessa: Convenções e inconvenções

Segunda, 26 de Setembro de 2011 às 00:38, por: CdB

Eis o outono e sabe-se, não por um poético colorido das árvores, mas pelo fato de que, ligou a televisão, deu político de matiz menos variado do que folha morta se espalhando pelo chão, reunido com seus comparsas – isto é um massacre, meu Senhor! – em cidade balneária prometendo praticar cada vez mais política enquanto fôlego lhes restar nos impávidos peitos.

Como estamos no Reino Unido, a coisa é teatral e bem organizada. Primeiro foi a conference dos sindicalistas.

Eles chamam de conferência ao passo que, nos Estados Unidos, e acho que para nós, se trabalharmos com essas perigosas armas, é convention ou convenção. Que faz mais sentido.

Conferência, para mim, será sempre um escritor menor de passagem pelo Rio (em geral, mexicano), explicando para uma seleta plateia de gente que não tem o que fazer, qual o estado da literatura na América Latina. Ou bobagem semelhante.

Mas voltemos à política que, numa hora em que a economia global vai para a cucuia e ninguém sabe o que fazer, eles, os políticos estão prenhes de ideias.Uns de três meses, outros já no oitavo.

Todo mundo cede lugar no ônibus a uma senhora em estado interessante, pois não? Assim é com a classe política que se engravida a si própria na ânsia por votos. Os políticos impõem respeito graças às ?bobagens? que andaram fazendo.

Continuando: depois, vêm os partidos, com seus representantes eleitos, seus membros e seus aspirantes a uma vitória escrutinária. Todos dizendo as mesmas coisas, arrebentando invariavelmente a cara em lugares-comuns e na baixa ou vulgar retórica.

Semana passada foi a vez do Partido Liberal-Democrata. Esta semana é do Partido Trabalhista e, depois, o Conservador. Dirão todos as mesmas coisas de sempre. Que é preciso fazer qualquer coisa.

O quê? Aí há cem mil maneiras de enganar os bobos, que de bobos vivem e são eleitos os líderes de uma nação.

Eu prefiro serial killer na televisão. São mais sinceros e não pretendem salvar país ou planeta. Tudo que pedem na vida é uma vítima para esfolar, estripar ou seja lá qual for a benesse que tenham para dar.

Só no outono, e sem longos violinos melancólicos, penso, monótono, na possibilidade de me mandar deste país que, como uma mulher meio louca, fincou as garras em mim já vai para quase quatro décadas.

Tenho direito a passaporte britânico. Conservei, no entanto, o original brasileiro. Sempre fui e não abro mão de minha condição de estrangeiro não importa o complicado caso em que tenha me metido.

Além disso, gosto mais da combinação de cores. Muito mais chique do que as de nossas bandeiras e uniformes da seleção.

Mas estou velho demais para fugir da raia da Inglaterra. Com o conhecimento que os anos me deram, aguento-me por aqui mesmo e, como quem feriu a mão na ponta de uma faca, sopro em cima e repito para mim mesmo, ?Vai, passar! Vai passar!?

O que passou mesmo foi o seguinte: digo voltando os olhos vidrados e a boca semiaberta babando, ao terrível mundo da política.

O Home Office, ou seja, mais ou menos o Ministério da Justiça britânico, está considerando a possibilidade de deixar em aberto a todos os cidadãos a possibilidade de, no ítem em que o passaporteado vê-se obrigado a colocar o sexo a que pertence, deixar à discrição do mesmo à sua escolha.

O mundo gira, a Lusitana roda, e dois sexos apenas, masculino e feminino, além de uma sem-graceza única, é pura jequice. O Home, tal como o chamo, dá a opção ao cidadão ou cidadã, se quiserem, de botar apenas um X onde é perguntado pelo gênero a que pertence. Mais instigante, mais moderno.

As autoridades estão se mirando no exemplo dado este mês mesmo pela Austrália, onde são todos uns antípodas, a possibilidade de se explicitar mais nessa questão do sexo, que, sabemos, é por demais complicada.

Passará a valer botar lá (arrã!), para ser oficializado na devida repartição, a predileção, ambição ou mesmo, mais raro, a condição de quem pediu o documento para ir finalmente ver um show da Broadway em Nova York.

Passa a valer, pois, para deixar o país e sair passeando mundo afora, com o aval governamental, os gêneros não mais suigeneris de transexuais, intersexuais, transgenéricos, andróginos e bissexuais. Destaco o fato de que essa vitória das chamadas minorias não foi obtida em conferência ou convenção política.

Só há, em minha opinião, um único gênero sexual inaceitável: o de político.

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