Rio de Janeiro, 02 de Novembro de 2026

Ivan Lessa: Aristófanes, nosso contemporâneo

Relendo outro dia Aristófanes (o dramaturgo grego é para ser relido e nunca lido), já que uma das revistas que assino publicara um breve resumo de...

Terça, 13 de Setembro de 2011 às 23:35, por: CdB

Relendo outro dia Aristófanes (o dramaturgo grego é para ser relido e nunca lido), já que uma das revistas que assino publicara um breve resumo de uma de suas peças menos famosas, Ploutos (no grego original),que podemos traduzir por Plutão, o deus das riquezas, ocorreu-me a espantosa atualidade de tudo, já que nada sei. Sou como aquele idiota, acho que um nobre, que, em fins do século 19, achava que não havia mais nada a ser inventado: o mundo estava pronto e acabado, agora era só tocar a boiada (ele nem pensou no carro ou no trem de ferro). O que interessa mesmo nesta coluna é examinar a atualidade de Aristófanes, que não é apenas zagueiro-direito do Paraíba Futebol Clube, mas que deu ao mundo o teatro tal como o conhecemos, descontado Andrew Lloyd Webber, é claro. Ploutos, ou Plutão ou ainda Riquezas, pode e deve ser lido agora, passados 2.400 anos, sugere Peter Jones, autor das linhas que mencionei, como um excelente material para a consideração dos gregos atuais, esses que pararam de parir gente do nível de Aristófanes e passaram apenas a produzir gente sem nível nenhum, à exceção de armadores, e assim mesmo com registro de nascimento no Panamá, feito seus navios. Riquezas é uma comédia. Menos engraçada que os filmes do Gordo e do Magro, mas mesmo assim uma comédia. Seu enredo é simples como as tolices de Laurel e Hardy (ou o Bucha e o Estica, como os chamam nossos irmãos lusos), Crêmilo, e vou aportuguesando os nomes, é um pobretão que traz para casa, boa pessoa que é, um cego, que, na verdade, nada mais é que o deus Plutão, responsável pelas riquezas do Olimpo e deste mundo. Zeus, com seu peculiar senso de humor, cegara o desgracido (obrigado, Dalton Trevisan) para que este não pudesse distinguir os bons dos maus. Em consequência, por mero capricho de Aristô (peguei intimidade), o cego só distribui riquezas para os maus, os bons que fossem se roçar nas ostras ou o equivalente da época. Cegueira, embuste, canalhices: estão vendo por que é duro chamar de comédia? No templo dedicado a Asclépio, no entanto, Crêmilo consegue, mediante concentração e força de vontade do autor, restaurar a visão do cego. Ao voltar para casa, o bom Asclépio encontra-a com o equivalente na época a vasos sanitários abarrotados do mais fino azeite e todos seus talheres transformados em prata e ouro. O resto da peça, para ser franco, e Peter Jones não é (fui conferir), é repleto com as consequências tidas como de grande divertimento pelos acadêmicos de escol. Por exemplo: Hermes, um dos deuses olímpicos mais populares, queixa-se de que todo mundo agora ficou tão rico que não se dá mais ao trabalho de oferecer sacrifícios aos deuses. A coisa toda termina com a decisão de instalar um, digamos, departamento dedicado apenas às riquezas no tesouro estatal da Acrópole, o que correpondia ao sonho de todo cidadão grego. Muitas outras coisas desinteressantes ocorrem. Mas isso, em poucas palavras, minhas e do companheiro Jones, é a base da coisa. Como veem não é de se rolar no chão de tanto rir. O gordo olhando para a câmera e acenando com a gravatinha é mais engraçado e, quem sabe?, talvez mesmo mais profundo e com uma moral mais instigante. Mas fato é que o Peter Jones faz a ilação entre a peça clássica e a Grécia atual. Qual seja: os gregos de então, como os de agora, querem o bem-bom na moleza. Tutu gordo, dinheirama, para todos à custa dos outros. E – atenção que o busílis vem aí – às custas da União Europeia, que não se faz de rogada. Como entendo mais de dramaturgo grego morto do que de União Europeia, encerro apenas dizendo que o autor do artiguete perde a tramontana e põe-se a xingar como um doido a União Europeia chamando-a de velha gorda e doente, deslumbrada com o poder, antidemocrática, servil e obsequiosa, só porque ela cumpre o exemplo dado pelo velho Aristófanes. Na verdade, entendi muito pouco dessa história toda e seus paralelos. Mas achei, por não ter azeite no vaso sanitário de casa ou talheres de ouro e prata, de bom alvitre compartilhar de mais uma perplexidade minha com os amigos leitores.

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