A refém italiana Giuliana Sgrena, ferida a tiros depois de ter sido libertada no Iraque, disse neste domingo que forças dos Estados Unidos podem ter disparado deliberadamente porque Washington é contra a política italiana de negociar com sequestradores.
Ela não deu evidências de sua alegação, mas o sentimento reflete a crescente irritação na Itália com a condução da guerra, que já matou mais de 20 italianos, incluindo o agente do serviço secreto italiano que a resgatou momentos antes de ser morto.
A morte do agente e o ferimento da jornalista, que trabalhava para um jornal comunista, provocou tensão entre a Itália e os EUA e colocou pressão para o primeiro-ministro Silvio Berlusconi assumir uma linha dura com o presidente George W. Bush.
Os Estados Unidos prometeram uma investigação completa do incidente em que soldados dos EUA dispararam contra o carro com os italianos que se aproximava do aeroporto de Bagdá, na sexta-feira.
Os militares dos EUA dizem que o carro estava em alta velocidade em direção ao posto de controle e ignorou os tiros de advertência. Ministros e o motorista do carro negaram.
Falando a partir do hospital onde está sendo tratada, Sgrena disse à TV Sky Itália que é possível que soldados tenham disparado porque Washington é contra as negociações da Itália com sequestradores que possam envolver pagamento de resgate.
"Os EUA não aprovam essa política (de resgate) e então tentam parar de qualquer maneira possível."
De acordo com o jornal italiano Corriere della Sera, o motorista, um agente italiano não identificado, disse: "Estávamos indo devagar, a cerca de 40-50 quilômetros por hora".
Sgrena escreveu no jornal Il Manifesto que o agente secreto Nicola Calipari salvou sua vida protegendo-a com o próprio corpo.
"Nicola se jogou para me proteger e então de repente eu ouvi seu último respiro quando ele morreu em cima de mim", escreveu.
Apesar de a Itália ter negado pagamento aos sequestradores em outros casos, o ministro da Agricultura, Gianni Alemanno, disse ao Corriere que "muito provavelmente" foi pago um resgate.
Jornais italianos especularam um valor na casa dos 10 milhões de dólares.
"Temos que punir os culpados e receber desculpas dos americanos", afirmou Alemanno. "Somos aliados fiéis, mas não podemos dar a impressão de ser subordinados."
O ministro italiano das relações parlamentares, Carlo Giovanardi, também disse que não acredita na versão norte-americana.
Berlusconi convocou o embaixador dos Estados Unidos imediatamente depois do incidente e terá que apresentar respostas de Washington quando falar ao parlamento, na quarta-feira.
Berluconi levou a Itália ao conflito no Iraque com cerca de 3 mil soldados. A decisão teve oposição da maioria dos italianos.
Seus adversários políticos querem tirá-lo do cargo na eleição geral do próximo ano e enfraquecê-lo nas eleições regionais do próximo mês.