Rio de Janeiro, 29 de Agosto de 2026

Itália: agonia de um regime neoliberal

Quarta, 15 de Dezembro de 2010 às 09:21, por: CdB

Governo Berlusconi não sabe mais o que fazer para tirar a Itália do buraco negro para dentro do qual ele próprio a jogou

 

 15/12/2010

 

Achille Lollo

de Roma (Itália)

 

 

 

No dia 14 de dezembro, a crônica política registrou vários acontecimentos que permitem mapear o volume e a amplitude da crise na Itália:

a) em Roma, uns 5 mil estudantes que integravam as delegações dos comitês de luta de secundaristas e universitários de toda Itália entraram em choque com a polícia em frente ao Senado. Por sua parte, o ministro do Interior, Roberto Maroni, exigiu dos comandantes da polícia que estes não permitissem nenhum tipo de protesto estudantil;

b) em Mestre, seis operários ocuparam a torre da indústria petroquímica Wilks para denunciar que a empresa suíça, após a suspensão dos trabalhos “por motivos de reestruturação técnica”, pretende dispensar os 900 operários da fábrica;

c) em Milão, enquanto umas 20 mil pessoas se reuniam para lembrar as 15 vítimas das bombas que serviços secretos e fascistas colocaram na Piazza Fontana em 12 de dezembro de 1969, o que deu início às chamadas Estratégias da Tensão, Leon Degrelle, antigo nazista belga e ex-oficial das Waffewn-SS, participava de um “encontro público” em Via delle Brianza, previamente autorizado pelo vice-prefeito Vincenzo De Corato, ex-fascista e, hoje, dirigente do partido “Povo da Liberdade”, do primeiro-ministro Silvio Berlusconi;

d) em Roma, o prefeito Gianni Alemanno – ex-fascista ligado aos grupos nazikin (nazistas) e, agora, personagem importante no partido de Berlusconi – é acusado de aparelhar as empresas de transporte publico (Atac) e de distribuição de água (Acea) da prefeitura, nomeando sem concurso 830 “executivos”, todos ex-fascistas ou ex-nazistas, além de parentes de outros dirigentes da administração romana. Dessa forma, o trem da alegria do prefeito de Roma custou, em 2009 e 2010, 300 milhões de euros;

e) em Nápoles, o lixo continua a ocupar as ruas de quase todos os bairros, visto que não há mais lugares para processar as milhares de toneladas de lixo. Das 21 regiões italianas, somente a região da Toscana aceitou receber os dejetos de Nápoles em suas instalações de queima e reciclagem;

f) em Turim, a Fiat se prepara para romper a fórmula de contrato nacional dos metalúrgicos. No seu lugar, pretende introduzir um “contrato individual de colaboração anual” que, na realidade, afasta os sindicatos da negociação coletiva nacional para promover negociações fábrica por fábrica. Essa proposta, apresentada pelo diretor-geral da montadora, Sergio Marchionne, é feita no momento em que 10 milhões de trabalhadores deveriam começar as negociações para o novo contrato nacional, que seria válido por dois anos.

g) em Palermo o promotor Nino Di Matteo e o procurador do Tribunal de Palermo querem interrogar os ex-presidentes da República Azelio Ciampi e Oscar Luigi Scalfari, o ex-ministro da Justiça Giovanni Conso e o ex-chefe do Departamento Prisional Nicoló Amato. O interrogatório visa reconstruir as negociações que o Estado italiano realizou com a máfia siciliana (Cosa Nostra) em 1992. De fato, segundo o “arrependido mafioso” Michele Spatuzza, tais negociações permitiram aos diferentes clãs mafiosos da Sicília penetrarem na administração do Estado e manterem relações com vários políticos, entre eles, Dell´Urso, em representação de Berlusconi.

h) em Milão, reaparecem as suspeitas de que o primeiro-ministro Silvio Berlusconi teria negociado “em off” com seu homólogo e amigo russo, Vladimir Putin, o pagamento de uma percentagem de 3% sobre a venda de gás russo à Itália.

Ao se ler esses fatos, tem-se a impressão de eles estarem tratando de um país do Terceiro Mundo, ou melhor, de uma republiqueta das bananas onde seu caudilho e respectiva aristocracia política usam o poder do Estado apenas para se enriquecerem com negócios e transações realizadas nos limites da ilegalidade. O drama é que a maioria da população italiana ainda sonha e espera que Berlusconi e os partidos da coalizão de centro-direita realizem o que prometeram na campanha eleitoral.

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