Ouçam essa - os minaretes são nossas baionetas, as mesquitas são nossas casernas, suas cúpulas nossos capacetes e nossos fiéis nossos soldados. A frase é do líder do partido islamita turco, Recep Tayyip Erdogan, que ganhou as eleições legislativas de ontem. Processado, cassado e condenado por incitação ao racismo religioso com essa frase, Erdogan não poderá ser o primeiro-ministro, mas seu partido, agora com maioria absoluta, tão logo esteja no poder tratará de amenizar sua condenação. Erdogan, ex-prefeito de Istambul, passou também por um processo de pasteurização para não dar medo ao eleitorado, e veste terno e gravata ocidentais, em lugar da túnica ou bata muçulmanas. Porém, suas mulher e filhas usam o chador, o véu que cobre a cabeça, parecido com aqueles mantos que usavam as velhas portuguesas. Erdogan e seu partido juram ser islamitas moderados, mas a Turquia, cujo exercito tem defendido uma republica separada da religiao, baseada na laicidade, poderá ser tentada a aderir à teocracia, já existente em outros países muçulmanos do Oriente Médio e da África. O programa dos islamitas é simples - pão para todos, num país em crise economica e com grande parte da população na miséria. Embora os marqueteiros de Erdogan tenham evitado qualquer outra frase que pudesse ligar o islamismo turco ao dos extremistas, a Europa não consegue esquecer que, há quatro anos, Erdogan teve seu mandato cassado e chegou a ser preso por incitação ao ódio religioso. O argumento de que se trata de um moderado não convence os especialistas, segundo os quais o islamismo é uma doutrina porosa, e citam o que vem acontecendo nas Filipinas e Indonésia, onde os extremistas avançam sobre os moderados. A Europa se lembra de Istambul, alias Constantinopla, fronteira do cristianismo e de sua cultura. E, mesmo sem querer, surgem os pesadelos do avanço de uma cultura teocrática muçulmana em cima de um Ocidente de cultura cristã atéia e materialista. Ou será que o islamismo turco é solúvel na democracia laica da União Européia?