O ataque ao comboio que levava ajuda humanitária à Faixa de Gaza, que partiu de Istambul e contava principalmente com ativistas turcos, é o mais recente e grave capítulo no instável relacionamento entre Israel e a Turquia. Se há dois anos os dois países se orgulhavam de serem aliados, hoje israelenses e turcos parecem distantes anos-luz uns dos outros. Para os israelenses, o relacionamento com a Turquia provava que poderia se dar bem com um país de maioria muçulmana - um dos primeiros a reconhecer sua independência, em 1949.
Outro resultado imediato foi a convocação do embaixador israelense em Ancara, Gaby Levi, para explicações, e o retorno do embaixador turco em Tel Aviv, Ahmet Oguz Cellikol. As primeiras reações do governo de Ancara foram anunciadas ontem pelo vice-premier turco, Bulent Arinc. O vice-premiê também anunciou a suspensão dos preparativos para três manobras militares conjuntas e pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU.
Em Ancara e Istambul, era impossível ignorar a revolta contra Israel. Milhares de pessoas se manifestaram na Praça Taksim, a principal da Istambul, e em frente ao consulado israelense. Outros milhares protestaram em frente à Embaixada de Israel, em Ancara.
As consequências do afastamento diplomático podem ecoar também na economia. A Chancelaria de Israel recomendou que israelenses adiem ou cancelem viagens à Turquia. Isso, às vésperas do verão, quando centenas de milhares de israelenses passam as férias na costa turca. Em 2008, foram cerca de um milhão. No ano passado, o número caiu um pouco. E este ano, deve despencar 60%.
É a segunda vez este ano que a Turquia chama de volta seu embaixador. Em janeiro, os turcos reclamaram do tratamento dado ao embaixador Celikkol, humilhado em frente à TV pelo vice-chanceler Dany Ayalon. O vice-ministro fez Celikkol sentar-se numa cadeira mais baixa. A repórteres locais, em hebraico, Ayalon disse que a bandeira turca não seria disposta na mesa.
Desde a ofensiva israelense na Faixa de Gaza, de dezembro de 2008 a janeiro de 2009, o premier turco usara vários fóruns públicos para condenar Israel. O primeiro mal-estar aconteceu em janeiro de 2009, dias após o fim do conflito, no Fórum Mundial Econômico em Davos, na Suíça. Erdogan bateu boca com o presidente israelense, Shimon Peres, e se retirou do recinto.
Em abril, Erdogan voltou ao ataque ao dizer que Israel é "a principal ameaça à paz no Oriente Médio". A tensão aumentou após o acordo de Turquia, Brasil e Irã, há duas semanas, para o enriquecimento do urânio iraniano em solo turco. O premier Benjamin Netanyahu qualificou o acordo de "descompostura".
Tudo isso fez com que Israel descartasse a Turquia como mediador de negociações com seus vizinhos árabes. Em 2008, os turcos chegaram a moderar as conversas entre israelenses e sírios. Mas, hoje, Israel acredita que os turcos estão num viés de aproximação com países considerados inimigos, como Irã e Iraque, além da própria Síria.