Está previsto para esta quinta-feira, à partir das 10h, na Comissão Parlamentar de Inquérito dos Bingos, o depoimento de João Francisco Daniel, irmão do ex-prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel, assassinado em janeiro de 2001. Ele foi autor, logo após a ocorrência do crime, de pesadas denúncias sobre o envolvimento de líderes do Partido dos Trabalhadores no crime, entre eles o deputado José Dirceu (PT-SP). Dirceu, à época, defendeu-se no Supremo Tribunal Federal, que arquivou o processo por falta de provas.
Em Santo André, os promotores Amaro Thomé Filho, José Reinaldo Carneiro e Roberto Wider Filho acusaram formalmente Sérgio Gomes da Silva, empresário tido como testemunha pela polícia, como mandante do crime. Ele e outras cinco pessoas, entre elas um ex-vereador do PT, estariam envolvidas em um esquema de coleta de propina na prefeitura. Todos ele negam a cumplicidade. João Francisco Daniel, que depõe nesta quinta-feira, acrescentou que o suposto esquema era montado para alimentar as campanhas políticas do PT. Segundo o irmão do prefeito assassinado, o dinheiro seguia em malas para o escritório de José Dirceu, que hoje o processa por calúnia, difamação e danos morais.
Para os promotores, no entanto, já existiriam provas de que Daniel conhecia a operação montada para financiar as campanhas petistas com dinheiro de caixa dois e, além do testemunho de João Francisco, foi anexado ao processo um dossiê localizado no arquivo do ex-prefeito, que culpa Gomes da Silva como operador do sistema ilegal de coleta de recursos. A autoria do documento foi atribuída a Gilberto Carvalho, chefe-de-gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o teria enviado a Celso Daniel.
Tanto a direção nacional do PT, quanto o deputado Dirceu, negaram as acusações de envolvimento no suposto esquema e o partido contratou o ex-procurador-geral da República Aristides Junqueira para seguir os passos das investigações. O pagamento pelos serviços prestados por Junqueira, de acordo com documentos de posse da CPI do Mensalão, foram realizados com dinheiro das empresas de Marcos Valério de Souza, acusado de ser o principal operador do "mensalão". O advogado defendeu-se, afirmando desconhecer a origem do dinheiro.
Celso Daniel foi assassinado em janeiro de 2002, a caminho de Santo André, quando voltava de um jantar com o ex-segurança e empresário Sérgio Gomes da Silva, apontado pelo Ministério Público como o mandante do crime. O processo foi reaberto, semana passada, após Wanderson Nilton de Paula Lima, conhecido como Andinho, resolver prestar um novo depoimento, no qual reafirma a sua inocência no assassinato de Celso Daniel, embora esteja condenado a cumprir 16 anos em regime fechado, por seqüestros e assassinatos em São Paulo.
Agenda
Nesta terça, está previsto o depoimento de Enrico Gianelli, ex-advogado da empresa multinacional Gtech. Ele é acusado de intermediar o contato de Rogério Buratti com os dirigentes da Gtech. Será ouvido também Juscelino Dourado, chefe de gabinete do ministro da Fazenda, Antonio Palocci.
Na quarta-feira, devem ser ouvidos Denivaldo Henrique Almeida e Roberto Lopes Telhada. De acordo com a assessoria da CPI, Almeida teve intensa comunicação com Buratti e Gianelli durante o período de renovação do contrato da Caixa Econômica Federal (CEF) com a Gtech. Lopes Telhada é advogado de Buratti.
Em depoimento à CPI dos Bingos, Buratti disse que a empresa Gtech ofereceu até R$ 16 milhões a ele para serem entregues ao PT durante as eleições de 2002. O dinheiro seria moeda de troca para a renovação do contrato com a CEF, regulamentação dos jogos no país e cargos na Caixa para funcionários da Gtech.
A CPI investiga a suposta utilização das casas de bingo para a prática de crime de lavagem de dinheiro e a possível relação das casas de aposta com o crime organizado.