Rio de Janeiro, 21 de Setembro de 2026

Iraque: contagem regressiva

Por Emir Sader - Em duas semanas vence o prazo que o governo Bush estabeleceu para a entrega formal do governo. Mas haverá pouca mudança e as tropas de ocupação permanecerão no país. Cronograma cumpre campanha eleitoral nos EUA e não o interesse do povo iraquiano. (Leia Mais)

Quinta, 17 de Junho de 2004 às 09:13, por: CdB

O que pode mudar no Iraque dentro de duas semanas? Ninguém em sã consciência pode pensar senão que as coisas continuarão como estão, se é que não se deteriorarão ainda mais. No entanto, esse é o prazo que o governo Bush estabeleceu para a entrega formal do governo por parte dos EUA a representantes escolhidos dos iraquianos.

Supostamente significaria a autonomia de decisão por parte de um governo iraquiano. Mas os problemas começam na escolha - e na não eleição - dos membros desse governo. Em um país profundamente dividido, qualquer escolha, ainda mais feita por tropas de um país invasor, tem pouca ou nenhuma possibilidade de produzir um governo que contente minimamente a todos os setores do país.

Em segundo lugar, trata-se de tropas de ocupação, cuja presença não somente não foi saudada pela população como, ao contrário do que esperavam, o apoio eventual diminuiu. E o governo iniciará seus trabalhos logo após o desgaste norte-americano pela revelação do tratamento brutal e sádico dado aos prisioneiros iraquianos.

Para confirmar que pouco mudará no Iraque, as tropas de ocupação dos EUA e da Grã-Bretanha serão convidadas a permanecer no país. Isto é, o governo já nasce sob a tutela de tropas que está obrigado a convidar para que permaneçam ocupando o país. Que governo pode ter legitimidade e aceitação nacional e internacional se começa seu mandato solicitando que as tropas que ocupam o país sigam ocupando-o?

Nenhuma análise com um mínimo de espírito de realidade proporia uma transição institucional que pretende significar a entrega do poder aos iraquianos no marco de enfrentamentos e de perda de controle da situação militar por parte das tropas de ocupação. Por que isso acontece?

Lembremo-nos que a decisão norte-americana foi tomada no marco de uma série de atentados que revelavam a perda de controle da situação, depois que o Washington tinha decretado o fim formal da guerra. Mas a escolha da data tem a ver não com a evolução interna do Iraque, mas com o cronograma da campanha eleitoral norte-americana. Aliás, todas as atitudes do governo Bush, daqui até a primeira terça-feira de novembro deste ano, têm que ser avaliadas nessa perspectiva. Não são os interesses do povo iraquiano os que contam. O que conta é o monitoramento das reações do eleitorado e os interesses envolvidos no governo Bush.

Pode-se esperar que nestas duas semanas, ao contrário, diante da data anunciada da formalidade do novo governo, os atentados tendam a aumentar de dimensão e se estender por todo o território iraquiano. A contagem regressiva até o dia 30 de junho não promete nada que se assemelhe à normalidade, como cenário de uma cerimônia que faz parte da campanha eleitoral do Partido Republicano e não da construção da paz no Iraque ocupado.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História

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