O governo do Iraque reconheceu neste domingo que parte das suas novas forças de segurança no combate aos insurgentes sunitas estão torturando ou cometendo excessos contra detidos suspeitos de ligação com Saddam Hussein.
Reagindo a numerosas e recentes acusações de prisões irregulares, e uso de violência contra detidos pela polícia do Iraque e por outras unidades de segurança, um porta-voz do governo responsabilizou em parte a brutalização da sociedade iraquiana sob o regime de Saddam pelo problema. Ele disse que ministros estão tentando resolver a situação.
- Essas coisas acontecem. Nós sabiamos disso - afirmou Laith Kubba em encontro com a imprensa depois que o jornal britânico <i>The Observer</i> publicou alegações detalhadas de esquadrões da morte e centros secretos de tortura.
- Isso não acontece porque o governo aprova ou adota isso como política - acrescentou. Segundo o porta-voz, os ministros estão preocupados.
Há seis meses, a organização Human Rights Watch, com sede em Nova York, classificou de "rotineiro" o abuso pelas forças iraquianas.
Os Estados Unidos e o Reino Unido, os principais aliados do novo governo iraquiano, expressaram preocupação. Têm sido constrangedor para Londres e Washington mortes e excessos contra iraquianos pelas próprias forças de segurança do país, depois que britânicos e norte-americanos justificaram a invasão também pela repressão do regime de Saddam.
Sendo a guerra civil uma ameaça no Iraque, autoridades dos Estados Unidos disseram estar receosos que essas alegações de abusos tenham um componente de rivalidade étnica e sectarismo. O governo iraquiano é dominado pelos xiitas e curdos.
O ministro do Interior, acusado por líderes da minoria sunita, hegemônica politicamente sob Saddam, de aprovar esquadrões da morte xiitas, rechaçou a alegação e declarou que a proteção aos direitos humanos é uma prioridade.
<b>AMEAÇA SECTÁRIA</b>
Um curdo membro do Parlamento disse à Assembléia Nacional que ele mesmo havia sido agredido e insultado de forma sectária quando em custódia da polícia há duas semanas. Mohammed Hamed Qader exigiu que o ministro do Interior investigasse o caso.
O vice-ministro do Interior, Ahmed Ali al-Khafaji, negou que a polícia torture ou mate detentos.
- É tudo falso. Não queremos repetir a história - disse.
São comuns os relatos sobre pessoas levadas por homens armados, uniformizados como policiais, e depois encontradas mortas, às vezes com sinais de tortura. O porta-voz do governo Kubba afirmou que as autoridades iraquianas estão treinando policiais e tropas para que elas respeitem os direitos humanos.
- Mas teoria é uma coisa, e prática, outra - disse.
- No final das contas, eu sinto dizer que vivemos numa sociedade em que a cultura atual aceita esses tipos de violação.
O Ministério do Exterior britânico afirmou que todos os abusos são inaceitáveis.
Uma autoridade norte-americana em Bagdá afirmou que algumas alegações contra a polícia dominada pelos xiitas parecem verdade.
- O problema do sectarismo é real - afirmou, sob garantia do anonimato, para jornalistas na sexta-feira.