O vice-presidente do Irã admitiu nesta quarta-feira que uma jornalista iraniano-canadense que havia sido detida após cobrir um protesto antigovernamental morreu como resultado de uma agressão, e que uma investigação sobre o incidente está em andamento.
Anteriormente, autoridades iranianas afirmavam que a fotógrafa free lance Zahra Kazemi havia morrido na sexta-feira de um derrame cerebral, rechaçando denúncias da família de que ela tinha sido espancada até à morte por agentes de segurança do Irã que a detiveram enquanto ela cobria um protesto estudantil no mês passado contra o establishment radical islâmico que governa o país.
- Ela morreu de hemorragia cerebral resultante de golpes infligidos contra ela. Estamos buscando detalhes para saber como isso ocorreu - disse a repórteres o vice-presidente Mohammad Ali Abtahi, depois de uma reunião ministerial.
A morte de Kazemi é mais um caso em que se chocam linha-duras e reformistas iranianos. Em meio a pedidos de uma completa investigação do incidente, a facção linha dura no governo insistia que ela havia morrido de um derrame e tentavam adiantar o enterro.
Um comitê apontado pelo presidente reformista Mohammad Khatami para investigar a morte interveio e evitou o enterro do corpo de Kazemi na terça-feira, e a informação de que ela fora espancada foi dada por Abtahi, um aliado de Khatami.
A morte de Kazemi "nada mais faz do que manchar nossa imagem internacional num momento em que estamos numa profunda crise interna e externamente", avaliou Abtahi. O primeiro-ministro canadense, Jean Chretien, disse nesta quarta que seu governo deseja obter todos os detalhes da morte de Kazemi.
- Queremos muito saber a verdade e se algum crime foi cometido, exigiremos que (os responsáveis) sejam levados à Justiça - afirmou.
Reformistas têm vinculado a morte de Kazemi à política dos radicais de reprimir jornalistas. Khatami tem dito que o fechamento de mais de 90 jornais nos últimos três anos e o aprisionamento de dezenas de escritores e ativistas em julgamentos fechados, sem júri, pelo judiciário dominado pelos linha-duras, violam a constituição, mas reconhece ser "impotente" para pará-los. Vários jornalistas iranianos foram presos nos últimos dias.
Os radicais e os reformistas encontram-se num impasse, com os linha-duras sem apoio popular e os reformistas sem ter controle sobre centros-chave de poder como o judiciário e os serviços de segurança. A crescente revolta e desilusão entre a população, enquanto isso, foi sublinhada pelos protestos do mês passado, uns dos maiores em anos contra o establishment islâmico.
Kazemi, 54 anos, uma fotógrafa de Quebec, foi detida em Teerã em 23 de junho depois de ter tirado fotos da prisão Evin durante protestos. Familiares e amigos afirmam que ela foi rotulada de espiã e espancada até perder a consciência por policiais durante interrogatório. Ele nunca foi formalmente acusada de nenhum crime.
Amigos que a visitaram num hospital dias antes de ela morrer disseram que ela estava inconsciente, como vários cortes e escoriações na face e na cabeça. Autoridades tentaram limitar a cobertura dos protestos mantendo jornalistas à distância do centro das manifestações e dos confrontos que se seguiram entre estudantes e vigilantes linha-duras.
O governo advertira no mês passado que seria perigoso para os jornalistas se aproximarem demais dos distúrbios. O filho da jornalista, Stephan Hachemi, exigiu que o corpo dela seja transladado para o Canadá e que uma plena investigação seja realizada com a participação de canadenses.
Joel Ruimy, diretor-executivo do Jornalistas Canadenses pela Liberdade de Expressão, considerou que a admissão por parte do Irã de que a fotógrafa morreu depois de ser espancada era um primeiro passo para se determinar exatamente o que ocorreu.
- Até que todos os fatos sejam revelados, o Ocidente deveria ser muito cauteloso sobre uma completa normalizaçã