Por fábio de oliveira ribeiro 27/05/2011 às 10:40
Meditações meditabundas sobre a civilização do consumo.
Acabo de ler na internet o seguinte:
http://tecnologia.ig.com.br/noticia/2011/05/27/mais+de+200+pessoas+fazem+fila+na+chegada+do+ipad+2+ao+brasil+10428724.html
Filas para comprar produtos da Aple são constantes. Já vi fotos delas nos EUA, na França e no Brasil. E já fiz comentários ácidos sobre as mesmas no passado
http://jornaldedebates.uol.com.br/debate/imagem-brasil-no-exterior-positiva/artigo/izumbiaple-ou-consumidor-consumido-pelo-desejo/14853
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2011/03/488080.shtml
Li, agora não lembro exatamente onde, que o fervor dos consumidores dos produtos Aple só encontra paradigma na devoção religiosa. A tese pode ser controvertida, mas a mim me parece bastante adequada. Afinal, desde que Deus morreu (Nietzsche), os totalitarismos políticos foram derrotados, estudados e, com justiça, estigmatizados (Hannah Arendt) e a religião virou apenas mais um espetáculo (Guy Debord) os seres humanos foram obrigados a encontrar outros objetos de culto. O consumo parece ter se tornado este objeto de culto em geral e os produtos Aple ocupam um lugar privilegiado nos altares dos devotos.
O homem e o mundo não mudaram muito. O que mudou foi o receptáculo da paixão humana. Qual o propósito e a finalidade da devoção? Na religião é a salvação e a exaltação do criador. Na política é a supremacia da raça pura ou a implantação do sistema econômico mais justo. Na devoção ao consumo o princípio que predomina é o do prazer. Prazer que é também utilidade, pois somos obrigados a admitir que os produtos Aple não são apenas brinquedos. São ferramentas que podem ser utilizados no trabalho.
Há alguns anos resenhei o livro A ESTRADA DO FUTURO, de Bill Gates. Na obra o guru dos PCs:
"...refere-se às pessoas insistentemente como 'consumidores' e não como 'cidadãos'. As escolhas feitas pelo autor não deixam qualquer dúvida. O termo que emprega é obviamente mais restritivo que o forjado durante a Revolução Francesa. Apenas aqueles que dispõe de recursos se encaixam no perfil de consumidores, enquanto todos podem ser considerados cidadãos independentemente de serem ou não consumidores. Não deixa de ser uma ironia o fato de que o supercapitalismo preconizado pelo dono da Microsoft pulverize ideologicamente um dos conceitos fundamentais que libertaram as forças do mercado das amarras do feudalismo."
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/12/340698.shtml
Bill Gates enfatiza, ainda, como PCs e programas viciam:
"... a 'RV será, sem dúvida, mais envolvente que os vídeo games, e viciará mais.' E por falar em vício, ao rememorar seu contato com os computadores na infância, Gates desabafa 'Eu estava viciado.' . Mais adiante admite que 'Meu pai viciou quando usou um computador para preparar seu imposto de renda.' A frase que melhor sintetiza esta questão - 'Se você lhes der uma chance, é quase certo que será fisgado.' ? não poderia ser comparada à mensagem subliminar que um traficante envia quando tenta seduzir alguém com as maravilhas proporcionadas pelas drogas?"
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/12/340698.shtml
O iPad pode ser definido como um computador portátil com teclado virtual (o teclado real é periférico que pode ser comprado por algumas centenas de dolares). Portanto, no momento presente o produto da Aple parece ser o receptáculo perfeito da devoção ocidental. O objeto é portátil como um pequeno retábulo medieval (diante do qual o viajante podia se ajoelhar e rezar sempre que precisasse ou sentisse necessidade) e certamente vicia tanto quanto um PC. Mas o mais importante, é que este objeto de culto também é capaz de produzir a transubstanciação virtual de que fala Bill Gates. O iPad tem grande potencial para transformar o cidadão (o ser humano político que questiona e decide os destinos da comunidade) em consumidor (o devoto dos produtos desenhados, produzidos e comercializados pela Aple).
A paixão pela política, no Ocidente, foi substituída pela paixão do consumo. Isto parece ser um fato comprovado pela crescente apatia política nas sociedades ocidentais. O mesmo ainda não ocorreu no Oriente Médio. Lá a política, com sua natural tendência a misturar-se à devoção religiosa quando o Deus ainda não morreu e a religião não é apenas um espetáculo, é e ainda será uma realidade por algum tempo. Daí existir o conflito de civilizações de que alguns autores falam, mas não pelas razões que eles mencionam. Para mim, entretanto, é difícil dizer qual das duas civilizações é melhor. São diferentes na aparência, mas iguais num aspecto crucial.
Na civilização do consumo o homem é ou pode ser imbecilizado pelo culto ao objeto. Na do Oriente Médio é a religião e a política que cumprem este mister. Mas tenho certeza de que se alguém, por amor a ciência social e à documentação da experiência, tentar tirar o Ipad2 das mãos de seu zeloso proprietário num Shopping verá que a reação dele não será muito diferente da de um islâmico diante da profanação das palavras do profeta Maomé.
No fundo não há oposição entre civilização e barbárie. Somos todos potencialmente bárbaros como menciona Tvetan Todorov
http://jornaldedebates.uol.com.br/debate/quais-os-verdadeiros-valores-sociedade/artigo/medo-dos-barbaros/15926.
Mais sobre o assunto Ipad
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=599ENO003
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=596FDS009
Email:: sithan@ig.com.br