Rio de Janeiro, 18 de Maio de 2026

Investimento estrangeiro gera déficit comercial no Brasil

Domingo, 02 de Março de 2003 às 05:52, por: CdB

O monstruoso volume de investimento direto estrangeiro que ingressou no Brasil a partir de meados dos anos 90 teve como maior legado o agravamento do desequilíbrio externo do país. Essa foi uma das conclusões do Iedi (Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial) em estudo sobre o investimento estrangeiro no Brasil e o de companhias brasileiras no exterior. Entre 1996 e 2001, o total de recursos que entraram no Brasil chegou a US$ 125 bilhões. Apenas em 2000, ingressaram US$ 32,779 bilhões. Em sua maioria, aponta o estudo, o investimento estrangeiro que aportou no país se dirigiu a setores industriais tradicionalmente deficitários em sua balança comercial ou com baixo volume de comércio exterior. No lugar de impulsionar o saldo e o volume de transações comerciais, provocou o contrário: as empresas com capital estrangeiro geraram considerável déficit comercial. Houve outros dois efeitos perversos: o aumento nos gastos com juros, remessas de lucros e pagamentos de royalties às matrizes fizeram com que a empresa com participação majoritária de capital estrangeiro se convertesse na grande responsável pelo déficit em transações correntes. A conta de transações correntes considera todas as transações do país com o exterior. Nela, além da balança comercial e da balança de serviços (gastos com juros, remessas de lucros etc.), entram ainda as transferências unilaterais (somas enviadas ao país por residentes no exterior e vice-versa). Se em 1995 as empresas estrangeiras respondiam por 31,8% desse déficit, em 2000 a participação passou a 61%, num déficit total de US$ 24,3 bilhões, US$ 14,9 bilhões eram das empresas sob controle estrangeiro. Também no mesmo período, as estrangeiras responderiam por 66,9%, dois terços do aumento de US$ 76,9 bilhões da dívida externa brasileira. De US$ 159,3 bilhões em 1995, a dívida passou a US$ 236,2 bilhões ao final de 2000. "Os investidores estrangeiros, em sua maioria, vieram para setores não-exportadores. E com um modelo de financiamento que se baseia em contrair dívida alta", diz Júlio Sérgio de Almeida, diretor-executivo do Iedi. Tome-se a seguinte hipótese, usada por Almeida para explicar esse movimento: ''Uma empresa (estrangeira) que compra uma concessionária de serviço público (eletricidade, telecomunicações) a arremata por US$ 1 bilhão. Ela entra com US$ 500 milhões de investimento, que eram de seu capital, mas contrai US$ 500 milhões em dívida. Simultaneamente, ela aumenta o IDE (ou seja US$ 500 milhões foram para a pilha de US$ 125 bilhões de investimentos), mas também aumenta a dívida externa ou interna'', completa. Na prática, o endividamento foi ainda maior. Pelas contas do Iedi, em 2000 para cada US$ 1 de investimento estrangeiro direto, as empresas com participação estrangeira instaladas no Brasil carregavam US$ 2,49 em dívidas, sendo US$ 1,03 de dívida externa e US$ 1,46 de dívida interna. O problema é que, além do óbvio aumento da dívida externa, essa situação pressiona o mercado interno de crédito. ''Nosso mercado interno de crédito é restrito. Temos apenas o BNDES e poucas linhas de bancos para financiamento de longo prazo. Com isso, sobra menos para o resto das empresas'', diz Almeida. O próprio Iedi se apressa em afirmar que esse recente ciclo de investimento estrangeiro contribuiu para ampliar as exportações brasileiras e adicionar valor agregado. Mas argumenta que o erro cometido pelo governo foi não implantar uma política que favorecesse investimentos voltados à exportação e desenvolvimento de setores estratégicos. Em seu estudo, o Iedi classificou as empresas estrangeiras em quatro grupos, usando como critério a importância das importações e exportações em suas atividades. No primeiro grupo ficaram os setores com propensão a exportar acima da média e a importar abaixo da média. São os chamados produtores de superávit, como exportadores agrícolas e setores industriais como a siderurgia. Fecharam 2000 com um superávit comerci

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