A investigação federal sobre o assassinato da freira Dorothy Stang analisa o possível envolvimento de outros atores e fatos no crime, além dos quatro suspeitos para os quais foram expedidos mandados de prisão na última semana.
- Tanto mais atores como, eventualmente, outros crimes podem estar relacionados a esse fato. Pensamos de uma forma mais macro. A investigação estadual vai no máximo até o Tato. Trabalhamos com uma hipótese um pouco maior - afirmou neste domingo o procurador da República Gustavo Nogami, que acompanhou em Altamira os depoimentos prestados por Amair Freijoli da Cunha, o Tato, suposto intermediário na contratação dos executores do assassinato de Dorothy, ocorrido no dia 12, em Anapu, a 140 km de Altamira.
O procurador explica que para a investigação federal interessam detalhes sobre processos de grilagem de terras públicas:
- Se você pensar de forma global, levar em conta o esbulho de terra pública, o crime não é meramente local, não se restringe a Anapu, envolve Altamira e o Pará como um todo.
Como exemplo, Nogami cita a intervenção há três anos no Cartório de Registro de Imóveis de Altamira, a pedido do Ministério Público Federal do Pará, sob acusação de reconhecer documentos irregulares para emitir títulos de propriedade.
Nogami disse também que a propriedade que Amair Freijoli da Cunha (indiciado por homicídio qualificado) comprou de Vitalmiro Bastos de Moura (acusado de ser o mandante do crime), pertencia a uma empresa fantasma que recebeu financiamento da extinta Superitendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).
- Muitos dos atuais grileiros são antigos beneficiários da Sudam - acusa.
Segundo o procurador, o Ministério Público Federal está acompanhando as investigações porque a Procuradoria da República deve pedir a federalização do processo, ou seja, o deslocamento da investigação e do julgamento do crime da Justiça estadual para a federal. Por isso, explicou Nogami, são importantes os elementos ligados ao processo de grilagem de terras na área onde aconteceu o crime. Se for comprovado que seriam terras federais, o interesse da União no caso pode ser juridicamente definido com mais facilidade.
- Pode ser que a gente tenha que voltar depois a investigar outros crimes - disse Nogami.
Crime qualificado
Amair Freijoli da Cunha, o Tato, um dos quatro acusados pelo assassinato da freira Dorothy Stang, está sendo indiciado por homicídio qualificado nos dois processos conduzidos em paralelo, o da Polícia Civil e o da Federal.
Segundo o delegado Waldir Freire, da Polícia Civil do Pará, o depoimento de Amair Freijoli da Cunha, o Tato, prestado hoje a policiais e promotores, revelou uma "íntima relação" com os demais suspeitos pelo crime contra a freira Dorothy Stang, assassinada no dia 12 em Anapu.
- Ele mente completamente em relação à versão das testemunhas, que dizem que ele discutiu com a freira, usando até palavras de baixo calão. Se ele está mentindo nesse pequeno detalhe, ele está mentindo o tempo todo - afirmou o delegado, após ter acompanhado o depoimento do acusado de ter intermediado a contratação dos executores do crime para o suposto mandante, Vitalmiro Bastos de Moura.
O delegado também chamou a atenção para a contradição de Tato afirmar ter atravessado a pé a mata entre Anapu e Belo Monte, onde foi encontrado no sábado pela polícia, enquanto não aparenta ferimentos, arranhões ou outros sinais de abatimento.
Segundo o promotor de Justiça de Altamira Edmilson Leray, no depoimento deste domingo, Tato revelou que já foi condenado no Espírito Santo, sua terra natal, por receptação de carga roubada. A pena teria sido de um ano na prestação de serviços comunitários.