Desculpem. Não é uma pergunta sem aparente razão: Quem de vós, enquanto realiza suas compras, atenta demoradamente para ler as informações presentes nos rótulos dos produtos alimentícios? Pouco provável ou diria difícil. No máximo lemos a marca e a serventia do produto. Ah! o prazo de validade. A máxima: poupar tempo. Conferimos os preços produto a produto tendo em mente o dinheiro que "enche" a carteira. Qualquer coisa, nós descartamos os menos essenciais. Coisa pouca, coisa que não fará falta no dia a dia: produtos de beleza, refrigerantes, sucos e sorvetes. A máxima: poupar dinheiro. Gastamos mais de 1/3 com alimentos, seja verduras, legumes, cereais, massas, óleo, margarinas, biscoitos, frutas, carnes, pescados. Curioso: comprávamos um tanto de mercadoria e saia por um valor; hoje, compramos bem menos mercadorias e pelo mesmo valor ou até mais. Várias dessas mercadorias embutem em seus preços custos abusivos, com os quais nem sonhamos. Outras suavizam o preço final ao consumidor que agradecido compra caixas e mais caixas.
Como as empresas conseguem que seus produtos cheguem mais baratos ao consumidor final sem que essa façanha traga prejuízos? Sem truques mágicos. Ou melhor: escondidos, nas mangas das camisas, incentivos fiscais e matérias-primas a baixo custo. Por um acaso não vivemos o boom da soja? Áreas ocupadas pela soja vezes sementes encheram as pranchetas dos agrônomos com picos de produtividade.
Às vezes parecia ilógico; as leis do capitalismo: quanto maior a oferta menor o preço a ser pago. Contudo, a soja passou a ser imprescindível ao mercado interno brasileiro e externo; por mais soja que se produzisse havia demanda suficiente para alçar os preços em toda cadeia produtiva e deixa-los serenos ao consumidor final. Todos felizes: os produtores, as empresas e os consumidores. Um verniz politicamente correto recobria toda essa felicidade; combater a fome dos famintos. Um negócio da China. A África pelo meio. Multidões de africanos e chineses rejubilados e fartos de tanta soja. Por quanto tempo?
Em qualquer negócio, em certa medida, arma-se uma arapuca. As iscas são os reais, os dólares e os Euros. Nossas mãos tateiam o escuro da armadilha e, se não ficarem presas, saem com umas míseras moedas. O que deu errado? Aprendemos a negociar tudo o quanto é material neste planeta. A água daqui pra frente é mais um entre tantos itens na OMC. Nem sempre o negociável está a olhos vistos e isso é o caso da agricultura. A arapuca é vender aos produtores que está se negociando grãos e aos consumidores que estão consumindo alimentos naturais sem nenhum tipo de herbicida. Conversa: o negócio é tecnologia de alimentos. Alteração do regime biológico da semente para ele produzir mais, codificação de suas informações e patenteamento da descoberta para quem quer que a use ter que pagar royalties. Gato por lebre, na certa. O Altermir Tortelli, coordenador da Fetraf-Sul, cantou a bola já tem um certo tempo, em se tratando de transgênicos: "A Monsanto que começou cobrando R$ 0,60, em apenas um ano dobrou o valor, exigindo agora R$ 1,20 por saca de 60 kg. Isto vale também para os agricultores que tiveram a sua produção convencional ou orgânica contaminada. E ela não quer cobrar na venda da semente, por não ter como controlar. Ela quer cobrar no mercado, nos silos". O Rio Grande do Sul, que vive uma das piores secas dos últimos sessenta anos, deve perder 60% da sua safra de soja, obrigando várias famílias a se mudarem dos seus estabelecimentos rurais. Como brincou a jornalista Amália Safatle, em Alternativas, coluna da Carta Capital, os agricultores sulistas que plantam transgênicos, e segundo o próprio Tortelli e outras pessoas o Rio Grande do Sul foi ocupado por eles, deveriam sugerir aos cientistas a invenção de espécies vegetais que prescindam de água. Para os agricultores, o problema da seca talvez não seja o mais premente de ser resolvido.
Com os baixos preços ofertados pa