O Ministério Público de Ibiá, no Alto Paranaíba, em Minas Gerais, deverá solicitar nesta sexta-feira à Justiça o embargo do transporte de cargas perigosas no trecho da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) que passa na cidade.
Os trilhos estão gastos, e os dormentes, que são as vigas em madeira colocadas transversalmente à via, completamente podres, denuncia o promotor do município, Otávio de Almeida Cabral.
Na manhã da última quarta-feira, 11 vagões com farelos de soja descarrilaram no perímetro urbano de Ibiá, 40 dias depois da tragédia ecológica que até hoje afeta o abastecimento de água local - houve vazamento de óleo combustível no Rio Misericórdia.
O promotor disse que estava no local na hora do acidente de quarta-feira.
- Cheguei a cavar um dormente com uma pedra, de um lado a outro, com se fosse terra fofa. Os trens estão trafegando a 10 quilômetros por hora, uma velocidade baixíssima, e ainda assim, descarrilando - disse.
A linha, informa ele, bem à beira do rio, tem recebido tráfego pesado, com cargas perigosas, como combustível de aviação, óleo diesel, metanol e octanol. O descarrilamento, esclarece o promotor, foi na linha de dentro, mais afastada do rio. Se fosse na outra, os vagões com farelo de soja cairiam na água.
Diante da más condições da ferrovia, o promotor informa que está estudando o embargo do transporte de cargas perigosas. No primeiro acidente, informou ele, o Ibama proibiu a FCA de transportar cargas perigosas.
- Depois, suspendeu o embargo. Agora, voltaram a trafegar com materiais perigosos - reage o promotor.
O diretor de operações da FCA, Jayme Nicolato, disse que a empresa, antiga Rede Ferrovia Federal (RFFSA), passou por um processo de sucateamento de 1992 a 1997, quando entrou no Plano Nacional de Desestatização.
- Quando ela começou a operar, em 1997, como FCA, o Governo a entregou com 50% dos dormentes podres. Hoje, nesse trecho de Ibiá, a taxa de dormentação podre é inferior a 15%, que é um padrão muito bom para a ferrovia - argumentou Jayme Nicolato.
Para Nicolato, o trecho foi fiscalizado duas vezes, neste semestre, pela Agência Nacional de Transporte Terrestre.
- São 1.750 peças de dormentes por quilômetro. Se tiver uma peça com problema não afeta a segurança. Pode ter até 20% de peças com problemas - acrescentou.
Na última quinta-feira, a FCA divulgou nota informando que último acidente aconteceu no pátio de manobra da empresa. No entanto, o promotor disse que foi a 500 metros da propriedade da FCA.
- Os vagões apenas saíram dos trilhos, mas não tombaram. Também não foi registrado nenhum impacto ambiental. A linha férrea não está interrompida e o tráfego ferroviário flui normalmente - diz a nota da FCA.
Interior de Minas Gerais está preocupado com descarrilamentos
Sexta, 21 de Novembro de 2003 às 00:47, por: CdB