A inteligência norte-americana "errou feio" a respeito do Iraque, lançando um golpe à credibilidade das agências que vai durar anos para ser superado. Além disso, os espiões norte-americanos ainda sabem muito pouco sobre os programas nucleares de países como Irã e Coréia do Norte, afirmou uma comissão presidencial na quinta-feira.
O duro relatório da comissão, baseado em mais de um ano de investigações, condenou as informações utilizadas pelo presidente George W. Bush há dois anos para iniciar a guerra contra o Iraque, e alertou que falhas como essas são bastante comuns nas agências de espionagem.
"Concluímos que a comunidade de inteligência errou feio em quase todos os julgamentos pré-guerra sobre as armas de destruição em massa do Iraque", escreveram os integrantes da comissão.
E, no momento em que os EUA acusam o Irã de ambições nucleares e pressionam a Coréia do Norte por seu potencial atômico, o documento disse: "A comunidade de inteligência sabe perturbadoramente pouco sobre os programas nucleares de muitos dos mais perigosos protagonistas do mundo".
A comissão presidencial, comandada pelo juiz da corte de apelações Laurence Silberman e pelo ex-senador democrata Charles Robb, pediu uma ampla reforma na comunidade de espionagem para aumentar a troca de informações e encorajar opiniões divergentes.
"As falhas que encontramos no desempenho da comunidade de inteligência no Iraque ainda são comuns demais", escreveram.
O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, disse que o presidente concorda que a comunidade de inteligência precisa de reformas de base. Ele disse que as recomendações serão analisadas e que medidas serão tomadas "num prazo relativamente curto".
Um ponto importante do relatório - sobre as acusações da inteligência dos EUA sobre os programas nucleares de Irã e Coréia do Norte - foi considerado confidencial e não foi divulgado.
Mas fontes que conhecem o trecho disseram que ele é um dos mais graves, considerando inadequada principalmente as informações sobre o Irã.
A Casa Branca já admitiu deficiências na área - o conselheiro de segurança nacional Stephen Hadley chamou os dados sobre o Irã de "difíceis de obter" -, mas o governo deixou claro que mantém sua política de ataques preventivos.
O relatório de 600 páginas fez duras críticas à coleta de informações sobre o Iraque pela CIA, pela Agência de Inteligência da Defesa e de outros órgãos, acusando-as de produzir informações "inúteis ou ilusórias" antes da guerra.
No que pareceu um ataque direto a George Tenet, que então era diretor da CIA, a comissão afirmou que "os relatórios diários enviados ao presidente e às principais autoridades sobre o Iraque muitas vezes se mostraram desastradamente parciais".
Bush e o vice-presidente Dick Cheney, acusados de exagerar o perigo para ir à guerra, foram poupados de ataques diretos.
"Os analistas que trabalharam com as questões das armas iraquianas concordam unanimemente que de nenhuma maneira a pressão política os fez distorcer ou alterar suas análises", afirmou o relatório.
Mas o texto acrescentou: "É difícil não chegar à conclusão de que os analistas de inteligência trabalharam num clima que não incentivava questionamentos da voz corrente".
Inteligência dos EUA "errou feio" sobre o Iraque, diz comissão
Quinta, 31 de Março de 2005 às 13:47, por: CdB