Rio de Janeiro, 10 de Fevereiro de 2026

Inspetor teria dado dica para roubo de R$ 2 mi

Quinta, 09 de Agosto de 2007 às 08:03, por: CdB

A suposta ligação do policial civil Sérgio Luís de Albuquerque, 49 anos, com traficantes da Rocinha pode ir além das informações que ele passava sobre operações na favela. Gravações telefônicas feitas pela Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), com autorização judicial, apontam o plano de um assalto milionário no qual o inspetor teria levantado todos os dados da vítima e passado aos bandidos. O objetivo era roubar R$ 2 milhões do apartamento de uma empresária, dona de uma das maiores fábricas de chocolate do País.

Albuquerque foi preso na manhã da última terça-feira, acusado de divulgar informações sobre a megaoperação realizada na semana passada na Rocinha. Os agentes da DRFA cumpriram mandado de prisão e busca e apreensão na casa do policial, em Copacabana. Foram apreendidos um computador, um carro e vários documentos.

Segundo a polícia, o plano para roubar a casa da empresária começou enquanto Albuquerque exercia sua função na 12ª Delegacia de Polícia de Hilário de Gouvêia, no plantão de 9 de julho. Por volta das 11h30, Renan Araújo de Carvalho, que é considerado pela polícia um dos maiores ladrões do Rio, e seria ligado ao tráfico do morro da Providência, no Centro, foi preso durante tentativa de assalto à residência da empresária, na avenida Atlântica. Como Albuquerque colheu seu depoimento, pegou os dados e teria repassado à quadrilha da Rocinha.

— Peguei umas informaçõezinhas boas (...). Aqui é bom por isso. É o melhor emprego do mundo — ironizava o inspetor numa conversa, segundo policiais.

Os ladrões acreditavam que, dentro do apartamento, eles encontrariam cerca de R$ 1 milhão em dinheiro e R$ 1 milhão em jóias. Em um dos três depoimentos que prestou nos dois últimos dias, Albuquerque confessou ter dado informações para nova tentativa de assalto.

Mortes investigadas

A Polícia Civil também deverá abrir inquérito para investigar as mortes de duas meninas em março deste ano. Namorada de Albuquerque, Suelen, 16 anos, e Maíra teriam sido executadas pelo traficante João Rafael da Silva, o Joca, chefe do tráfico da Rocinha, que suspeitou que elas estivessem passando informações à polícia.

O inspetor confirmou, em depoimento, que foi abordado por traficantes, ficando cerca de cinco horas coagido sob a mira de fuzis. Contou ainda que um bandido chegou a perguntar se ele era apaixonado por ela. — Continuaremos tentando reunir provas de que o Joca executou essas meninas — afirmou o delegado-adjunto da DRFA, Maurício Demétrio. A 15ª DP (Gávea) também investiga o caso.

Não foi encontrado registro de desaparecimento das jovens na Delegacia de Homicídios (DH) entre os meses de fevereiro e agosto. O chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, espera que a população colabore. — Precisamos de algumas informações mais concretas ou uma denúncia para tentar localizar o corpo. Sem isso, é quase impossível encontrar um corpo na Rocinha — disse.

Medo

Diante da ameaça de bandidos da Rocinha de atacar mansões, escolas e prédios de luxo de São Conrado e Gávea, caso a polícia entre na favela, conforme escutas telefônicas publicadas esta semana, a reação dos moradores da região foi a de quem já se acostumou com o medo como parte do dia-a-dia. Uma espécie de 'anestesia' com a violência.

— O crime e a corrupção policial estão de tal forma em nossas vidas que esse tipo de ameaça já nem assusta mais — afirmou o morador de São Conrado, que se identificou como Paulo.
O médico Ricardo Gomes, 52 anos, que também mora no bairro, concordou. — Não senti mudança no clima após a ameaça. O medo da violência é sempre o mesmo, está na rotina — disse.

O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse que as ameaças não intimidam a polícia. Já o chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, classificou a afirmação do bandido como "conversa fiada".

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