Rio de Janeiro, 06 de Setembro de 2026

Insistindo no Erro

Sexta, 22 de Abril de 2005 às 06:09, por: CdB

O Banco Central aumentou a taxa de juro outra vez, surpreendendo a opinião pública, os empresários, os sindicalistas e até o mercado financeiro. Noticia-se que o presidente da República teria ficado decepcionado. Será que o BC concorda com as aspirações presidenciais?


Quando Bush foi reeleito, o Macaco Simão disparou: "Errar é humano; insistir no erro é norte-americano". A "boutade" se aplica também à diretoria do Banco Central, que é dominada, como se sabe, por financistas e economistas treinados em bancos ou universidades norte-americanos.
Nesta semana, o Banco Central resolveu aumentar a taxa de juro outra vez, surpreendendo a opinião pública, os empresários, os sindicalistas e até o mercado financeiro. Uma leitora, indignada, reclamou: "Vocês, economistas, ficam discutindo se cabe ou não dar autonomia ao Banco Central, quando ele já é autônomo e faz o que bem entende". Realmente, nas circunstâncias brasileiras, a discussão sobre autonomia é bizantina. Noticia-se que o presidente da República teria ficado "surpreso" e "decepcionado" com mais esse aumento dos juros. Não é a primeira vez. Em relação ao poderoso Banco Central, o presidente Lula é uma espécie de rainha da Inglaterra.

Imagino que a nossa rainha da Inglaterra esteja subindo pelas paredes. Afinal, diferentemente da original, ela não possui cargo vitalício e tem que se reeleger no ano que vem. Fica a dúvida: será que o Banco Central concorda com as aspirações presidenciais? As taxas de juro no Brasil são uma aberração, um escândalo inacreditável. Deflacionada pela inflação esperada, a taxa brasileira de curto prazo supera os 13%. Nenhum país desenvolvido ou "emergente" pratica juros semelhantes em termos reais. A média é de apenas 0,6% nos países desenvolvidos e de 2% nos "emergentes", segundo levantamento realizado pela consultoria GRC Visão.

O dogmatismo e a inflexibilidade da diretoria do Banco Central ultrapassaram todos os limites, inclusive os da lógica e da coerência. O Banco Central vive repetindo, em suas avaliações periódicas, que existe uma defasagem considerável entre as variações da taxa de juro e seus efeitos sobre a inflação. Pode-se inferir que a política de juros de hoje afeta sobretudo a inflação de 2006. Ora, no seu último relatório trimestral de inflação, divulgado há poucas semanas, a autoridade monetária informou que, pelas suas projeções, uma taxa de juro de 19,25% seria consistente com uma inflação abaixo do centro da meta no ano calendário de 2006 - um motivo para, em princípio, ter reduzido e não aumentado para 19,5% a taxa de juro nesta semana.

Parafraseando Pascal, poderíamos exclamar: "O Banco Central tem razões que a própria razão desconhece!". Digito essa frase e paro, envergonhado. Peço desculpas ao grande filósofo francês pela paráfrase de mau gosto. Não cabe misturá-lo com a ortodoxia de galinheiro do Banco Central.

A próxima ata do Copom trará certamente novos pretextos e argumentos para o aumento dos juros. Veremos. Mas uma coisa é certa. Os custos dessa política de juros são extremamente elevados - repito pela enésima vez (se eles insistem nos erros, só me resta insistir na crítica).
Os juros exorbitantes provocam basicamente quatro problemas interligados.

Primeiro: a alta dos juros restringe o consumo e o investimento e tende a dificultar a sustentação da recuperação em curso desde fins de 2003. Estima-se que, em 2005, o crescimento econômico diminua para a faixa de 3,5% a 4% - resultado medíocre para um país que não cresce de forma sustentada há 25 anos e ainda sofre de taxas elevadas de desemprego e subemprego.

Segundo: o enorme diferencial de juros entre o Brasil e o resto do mundo atrai capital especulativo e provoca valorização da moeda nacional. Essa valorização é duplamente inconveniente: prejudica a produção, o investimento e o emprego nos setores que exportam e naqueles que concorrem com importações no mercado doméstico, reforçando a desaceleração da

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