Rio de Janeiro, 10 de Outubro de 2026

Insensata opção

Segunda, 08 de Agosto de 2011 às 08:22, por: CdB

Muito se tem falado e escrito pró e contra a opção dogoverno Lula/Dilma em reativar o Programa Nuclear, implicando assim nainstalação de centrais nucleares no território brasileiro.

Os defensores desta tecnologia, identificados com setores daburocracia estatal, militares, membros da academia, grupos empresariais(empreiteiras e construtores de equipamentos), julgam que o Brasil não deveprescindir desta fonte de energia elétrica para atender a demanda futura,alegam ser vantajosa por ser barata e "limpa” por não emitir gases de efeitoestufa. Afirmam não ser possível acompanhar o desenvolvimentocientífico-tecnológico, caso não se construa usinas nucleares. E por outrolado, minimizam o recente desastre ocorrido no complexo de Fukushima Daiichi,garantindo riscos mínimos, e mesmo a ausência deles, nas instalaçõesbrasileiras.

A primeira vista tais argumentos pareceria convincente, epoderiam até confundir os mais neófitos e menos desavisados cidadãos e cidadãs,que desejam o melhor para o país e para sua população. Mas a verdade dos fatostem revelado que a opção pela energia nuclear atende somente a interessesinconfessáveis de alguns, em detrimento dos interesses da ampla maioria,resultando em mais problemas do que soluções.

É preciso entender de uma vez por todas, a grande vantagemcomparativa do Brasil por possuir uma diversidade e abundância de fontesenergéticas renováveis que não são encontradas em nenhuma parte do mundo, e quepodem pela tecnologia atual, atender as necessidades energéticas atuais efuturas do país. Estas sim, desde que utilizadas de forma sustentável, podemcontribuir para uma sociedade descarbonizada.

Afirmar que as usinas nucleares não emitem gases de efeitoestufa é uma meia verdade. É certo que quando em funcionamento as usinas núcleoelétricas emitem desprezíveis quantidades destes gases. Mas lembremos que ascentrais não funcionam sem o combustível nuclear. E este para ser obtido, passapor etapas e operações que são conhecidas como "ciclo do combustível nuclear”,que vão desde a extração do minério radioativo, sua concentração,enriquecimento, preparação das pastilhas de combustível, seu uso na usina nageração de eletricidade, armazenagem do lixo radioativo produzido e odescomissionamento da usina, depois de atender sua vida útil. Em todas estasetapas e operações a produção de gases de efeito estufa é importante, e aquantidade varia muito em função da metodologia empregada para calcular, de 60a 400 gCO2/kWh, como relatado por inúmeras publicações científicas. Por si sóesta grande variação merece explicações e estudos mais conclusivos.

Relacionar a necessidade de instalação de usinas nuclearesno país como sendo fundamental e imprescindível para acompanhar odesenvolvimento científico tecnológico na área nuclear é uma justificativacompletamente fantasiosa, irreal e agride o bom senso. Ao invés de investir 10bilhões de reais na construção de uma única usina, com baixo índice de nacionalizaçãode seus componentes, poderia se construir reatores multi-propósito por 1 bilhãode reais cada unidade. Seriam muito mais úteis ao desenvolvimento e a soberaniado país.

Minimizar os riscos das instalações nucleares é um atentadoa inteligência de qualquer pessoa. Mesmo não divulgados são freqüentes osvazamentos de materiais radioativos e problemas que ocorrem nos 442 usinasnucleares espalhadas em 29 países. Os desastres mais significativos nos últimos20 anos, de Thernobyl, Three Mille Island e de Fukushima Daiichi, foramsuficientes para alertar o mundo de quão é perigosa e dos riscos à vida queoferecem estas instalações.

E finalmente, os custos da energia elétrica produzida pelasusinas nucleares são mais caros que outras fontes, como a eólica e ahidráulica, e comparados ao das termoelétricas. Além de necessitarem desubsídios públicos, ou seja, repasse de enormes recursos financeiros do tesouronacional disponibilizados para esta tecnologia; que acabam dificultando queinvestimentos sejam realizados em outras fontes energéticas como a solar,eólica, biomassa, pequenas centrais hidroelétricas, e no aproveitamento dosrecursos energéticos encontrados nos oceanos. É certo também que com as novasregras de segurança impostas pós Fukushima, ainda mais caro ficará o custo daeletricidade nuclear.

Uma pergunta que não quer calar, diz respeito à negativa demuitas seguradoras em cobrir os acidentes nucleares, que em muitos países essacobertura é atribuída ao Governo Federal. Se as companhias de seguro,especialistas em estimar os perigos de acidentes, não desejam arriscar seudinheiro, por que se devem obrigar as pessoas a arriscarem suas vidas?

No mínimo é insensata esta opção energética adotada pelogoverno brasileiro, que deve ser mais discutida com transparência. Daí estarjunto à imensa maioria da população que tem se manifestado contrária aconstrução de usinas nucleares em território nacional, fortalecendo o coro:Energia nuclear? Não obrigado.

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