O encontro entre líderes de quase 70 países europeus e africanos, reunidos em Lisboa para a primeira Cúpula da União Européia e da África nos últimos sete anos, já começou sem a presença de um dos mais ativos colonizadores do continente africano. A Inglaterra boicotou a reunião em protesto contra a presença do presidente do Zimbábue - ex-possessão britânica -, Robert Mugabe. Ele foi banido da União Européia sob a acusação de violações dos direitos humanos. Mas a presença de Mugabe foi exigida na cúpula por insistência dos líderes africanos, o que afastou o primeiro-ministro inglês, Gordon Brown.
O anfitrião do evento, o primeiro-ministro português José Sócrates, no entanto, inaugurou o encontro neste sábado pedindo uma "nova parceria igualitária" entre os dois continentes.
- Esta é a cúpula dos iguais. Somos iguais em nossa dignidade humana... e também iguais em termos de responsabilidade política - afirmou.
Sócrates reconheceu que o Zimbábue tem sido um ponto de atrito entre a Europa e a África, mas disse que o diálogo em relação ao assunto tem chegado a melhores resultados.
Comércio e direitos humanos
Oficialmente, os líderes reunidos em Lisboa querem enfatizar o que chamam de "nova parceria estratégica", com ênfase nas discussões sobre comércio, imigração, meio-ambiente, segurança e direitos humanos. O crescente comércio entre os países africanos e a China está forçando a Europa a encarar a África com mais seriedade. Os países europeus dizem que, apesar de áreas de conflito, como as do Sudão e da Somália, muitas nações africanas hoje são mais estáveis e democráticas do que nunca.
Organizações de ajuda humanitária fizeram um apelo para que, no encontro, os chefes de Estado adotem medidas concretas para acabar com a pobreza e os conflitos na África. Mas, como em todas as grandes reuniões internacionais, a agenda desta cúpula já foi fechada há vários meses. A maioria dos participantes quer ver se algum acontecimento vai questionar este plano de ação.
Dominação branca
A antiga cidade de Zimbábue era a sede de uma desenvolvida civilização, o Império de Monomotapa que floresceu no sudeste africano entre os séculos IX e XIII, mas portugueses traficantes de escravos adentram a região no século XVI. Tentam ocupá-la para unir os territórios lusitanos de Moçambique (vizinho de Zimbábue) e Angola. Exploradores britânicos, no entanto, frustraram o plano de Portugal e, no século XIX, o britânico Cecil John Rhodes obteve a concessão da Coroa Britânica para a exploração mineral do território.
Tropas do Reino Unido esmagaram a resistência das tribos nativas mashona e matabele e em 1888 transformaram a região em seu protetorado, chamando-o de Rodésia, entregue à administração da Companhia Britânica da África do Sul, fundada por Rhodes, que a controlou até 1923, quando passou à tutela direta das autoridades britânicas.
A região, então, foi dividida em Rodésia do Norte e Rodésia do Sul (atual Zimbábue), onde colonos brancos instalaram-se e formaram um governo autônomo que excluia a população negra, em um dos piores episódios do regime racista que vigorou naquela região. Em 1961, a Rodésia do Sul adotou uma Constituição que garantia o domínio dos brancos, em termos semelhantes aos do apartheid sul-africano.
As duas Rodésias, que formavam uma federação, foi dissolvida em 1963. O Reino Unido concede independência da Rodésia do Norte (atual Zâmbia) e da Niassalândia (Malauí) em 1964, mas recusa-se a dá-la à Rodésia do Sul. O conflito favorece a ascensão da Frente Rodesiana, partido racista branco. Seu líder, Ian Smith, torna-se primeiro-ministro e proclama a independência da Rodésia em 1965. A iniciativa não é aceita pelo Reino Unido.
Somente em 1979 o país começou a ser devolvido à população negra, com a instalação de uma assembléia constituinte que mudou o nome do país para Zimbábue.