A inflação acelerou no atacado brasileiro em fevereiro em razão da pressão da soja e saída de alguns alívios temporários, enquanto o varejo apontou um arrefecimento dos preços passados os efeitos sazonais do começo do ano. Ambos os dados ficaram bem abaixo do esperado pelo mercado, levando as projeções de juros na BM&F a abrir o dia em queda, já que a inflação comportada somada à contínua fraqueza da atividade econômica reforça a previsão de novos cortes na Selic.
"O resultado abaixo do esperado... poderá baixar as projeções para março, já que os preços dos produtos industriais no atacado apresentaram-se em trajetória mais bem comportada do que o apontado pelas prévias deste indicador", afirmou a LCA Consultores em nota a clientes.
"Em adição, assim como visto no IPCA-15 de fevereiro, o dado do varejo também apontou para uma trajetória descendente dos preços dos alimentos no varejo", acrescentou.
Inflação dos aluguéis
Depois de registrar deflação de 0,44% em janeiro, o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) teve alta de 0,26% em fevereiro, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV). Essa elevação foi provocada, principalmente, pelo avanço verificado em dois componentes do IGP-M: o Índice de Preços por Atacado (IPA) que teve alta de 0,20%, ante -0,95%, e o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), que chegou a 0,35%, ante 0,26%. O IGP-M é usado como base no cálculo de reajustes de aluguéis, entre outros.
No caso do IPA, entre os subgrupos pesquisados, foi constatada aceleração em veículos e acessórios (de -6,45% para 0,17%). Em materiais e componentes para manufatura, a taxa se manteve em queda (-0,44%), mas o resultado indica um processo de recuperação, uma vez que na pesquisa anterior a redução havia sido mais acentuada (-2,00%).
Em relação a matérias-primas brutas, os itens bovinos mantiveram-se, na média, com variação negativa (-0,78%), ante o índice de -4,56% da pesquisa anterior. O preço do café em grão disparou, atingindo alta de 7,12%, ante deflação de 1,03%). A soja em grão também registrou alta, subindo de 5,16% para 5,84%. Já o arroz em casca caiu de -0,30% para -4,15%; a mandioca, de -3,41% para -9,29%; o milho em grão, de 9,71% para 5,47%.
Quanto ao segmento da construção civil, a pesquisa apurou elevação de preços dos materiais, de 0,20% para 0,31% e da mão-de-obra, de 0,17% para 0,29%.
O único componente do IGP-M em desaceleração foi o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que passou de uma alta de 0,75% para 0,40%. Seis dos sete grupos que formam o IPC apresentaram variações menores, com destaque para alimentação (de 0,96% para 0,25%). Essa desaceleração está associada principalmente à queda nos preços das frutas (de 3,82% para -1,48%); redução no ritmo de remarcações das hortaliças e legumes (de 5,35% para 2,21%) e recuos mais expressivos referentes a carnes bovinas (de -0,23% para -1,37%).
Os demais grupos que reduziram a velocidade de aumentos são: educação, leitura e recreação (de 2,30% para 1,59%), transportes (de 0,85% para 0,52%), habitação (de 0,30% para 0,24%) e despesas diversas (de 0,36% para 0,35%). Já o grupo saúde e cuidados pessoais indicou aceleração, passando de uma alta de 0,49% para 0,63%, o que é atribuído à elevação de preço dos remédios (-0,14% para 0,34%).
Atacado
Dentro do IGP-M, o Índice de Preços por Atacado (IPA) avançou 0,20% em fevereiro, contra queda de 0,95% em janeiro.
"Isto ocorreu por conta da aceleração em alguns itens com grande peso e que haviam apresentado forte deflação nos resultados mais recentes, como Veículos automotores, reboques, carrocerias e autopeças; Produtos derivados do petróleo e álcool; e Celulose, papel e produtos de papel", acrescentou a LCA.
A consultoria refere-se à redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos e a queda de alguns combustíveis em razão da baixa do petróleo.
A queda do IPA industrial foi reduzida para 0,18 % neste mês, ante 1,48 % no passado. O IPA agrícola acelerou a alta para 1,25 %, ante 0,55 %.
Entre os produtos individuais, no atacado os destaques de alta de fevereiro foram soja em grão, açúcar cristal, farelo de soja, açúcar refinado e milho em grão. A soja tem visto seu preço se elevar em razão de problemas climáticos afetando algumas importantes regiões produtoras no mundo. Os demais produtos alimentares in natura sofrem uma pressão de alta neste início de ano.
Varejo
No IPC-S, os grupos Alimentação e Educação, leitura e recreação foram os principais responsáveis pelo arrefecimento da taxa. Os preços de alimentos subiram 0,31 % na terceira leitura do mês, ante alta de 0,81 % na anterior. Destacaram-se a desaceleração dos custos de hortaliças e legumes, frutas e carnes bovinas.
Os de educação avançaram 1,25 % agora, ante elevação anterior de 1,93 %. Esse grupo tem um aumento sazonal de preços nos dois primeiros meses do ano, mas a pressão arrefece significativamente em seguida.
Entre os itens individuais, as maiores influências para baixo para o indicador foram as quedas de preços de tomate, maracujá, limão, mamão papaia e maçã nacional. Os destaques individuais de alta vieram de manga, tarifa de ônibus urbano, abacaxi, aluguel residencial e batata-inglesa.